Sua empresa precisa de você. Mas você está cuidando de si mesmo?
Entre metas, compromissos e uma rotina que parece não ter fim, a própria saúde costuma ficar para depois. No Papo Empreendedor, dois médicos mostram por que esse hábito pode custar caro e como pequenas mudanças fazem diferença ao longo da vida
O carro começa a fazer um barulho estranho. A primeira reação é procurar uma oficina. O celular apresenta um problema e logo buscamos uma solução. Na empresa, basta surgir um imprevisto para reorganizar toda a agenda. Mas quando o corpo dá sinais de que alguma coisa não vai bem, a resposta costuma ser outra: “É só cansaço”, “deve ser estresse” ou “semana que vem eu vejo”.
No meio de tantos compromissos, metas e problemas para resolver, a saúde acaba ficando em segundo plano. A gente percebe que não está dormindo bem, sente um cansaço que não passa, mas sempre encontra uma desculpa para adiar uma consulta. Afinal, parece que tem sempre alguma coisa mais urgente para fazer.
Esse hábito, tão comum na rotina de quem trabalha e empreende, foi um dos assuntos de mais um episódio do Papo Empreendedor. Anna Cardoso recebeu o neurologista José Hamilton Bussolo e o urologista Joaquim Mesquita para falar sobre saúde, prevenção e qualidade de vida. Durante a conversa, os médicos explicaram como a falta de cuidados pode afetar não apenas o bem-estar, mas também o desempenho no trabalho e a maneira como envelhecemos.
E os dois médicos trouxeram exemplos que ajudam a entender por que tantas pessoas só percebem a importância do cuidado quando alguma coisa já não funciona como antes.
O orgulho de nunca ter ido ao médico
Existe uma frase que o urologista Joaquim Mesquita escuta com frequência. Homens chegam aos 50 ou 60 anos e anunciam, quase como uma conquista, que nunca precisaram procurar um médico.
“O homem parece que ele tem orgulho muitas vezes de chegar com 50, 60 anos e falar: ‘Nunca fui no médico’. Como se fosse algo super gratificante”, conta o urologista.
Mas será que nunca ter procurado atendimento significa realmente ter boa saúde?
Para Joaquim, a resposta nem sempre é positiva. A maneira como muitos homens foram criados, com a ideia de que precisam ser fortes e suportar qualquer dificuldade, ainda pesa na decisão de buscar ajuda. Há também a vergonha, o medo de descobrir uma doença e até a resistência em mudar hábitos.
Quando o assunto é saúde sexual, essa barreira pode ser ainda maior.
Outra frase bastante comum no consultório é: “Para minha idade tá bom”.
O problema, explica o médico, é que muitos homens passam a aceitar dificuldades urinárias ou sexuais simplesmente por acreditarem que fazem parte do envelhecimento. E deixam de investigar situações que poderiam ser tratadas.
“Tem paciente de 70 anos, 80 anos tendo uma vida sexual ativa com uma qualidade […] muito boa”, exemplifica.
Isso não significa ter o mesmo desempenho dos 20 anos, mas compreender que envelhecer não precisa ser sinônimo de abrir mão da qualidade de vida.
E existe outro equívoco bastante comum: acreditar que o urologista é um médico que só deve ser procurado depois dos 50 anos, por causa da próstata.
O médico urologista explica que a especialidade acompanha diferentes fases da vida masculina. Na adolescência, pode ajudar a esclarecer dúvidas sobre desenvolvimento e sexualidade. Na fase adulta, entram questões como fertilidade, funcionamento urinário e saúde sexual. Com o avanço da idade, o acompanhamento passa a considerar também as mudanças naturais do organismo e o risco de determinadas doenças.
Até o temido exame de toque retal, que ainda afasta muitos homens do consultório, não é obrigatório em todas as consultas. Sua necessidade depende da avaliação de cada paciente.
Neste Novembro Azul, a mensagem vai além da prevenção do câncer de próstata: cuidar da saúde masculina não deveria ser um compromisso marcado apenas quando os problemas aparecem.
Seu cérebro também precisa sair do expediente
Se os homens muitas vezes adiam a consulta por medo ou vergonha, existe outro comportamento que atinge quem vive uma rotina intensa: tratar o cansaço como se fosse uma consequência inevitável do trabalho.
Dormir pouco, passar horas diante de telas, resolver vários problemas ao mesmo tempo e terminar o dia com a cabeça cheia parece ter se tornado normal.
Mas o neurologista José Hamilton chama a atenção para o preço dessa rotina.
Uma noite mal dormida pode aparecer no dia seguinte em forma de irritabilidade, dor de cabeça, dificuldade de concentração e queda no rendimento. O sono, explica ele, não é apenas um período de descanso. É também um momento importante para o aprendizado e a consolidação das memórias.
E quando alguém chega ao consultório reclamando que está esquecendo tudo?
Nem sempre o problema está na memória.
“Geralmente quando a pessoa fala assim: ‘Não, eu tô com a memória fraca’, provavelmente não é um problema de memória. Claro que depende um pouquinho da idade”, explica.
Imagine participar de uma reunião enquanto pensa nas mensagens que ainda precisa responder, nos compromissos da tarde e nos problemas que ficaram pendentes. No dia seguinte, talvez seja difícil lembrar de parte daquela conversa.
Não necessariamente porque a memória falhou, mas porque a atenção estava dividida.
Por isso, o médico neurologista recomenda algo aparentemente simples, mas cada vez mais difícil: fazer uma coisa de cada vez.
A rotina organizada, segundo ele, ajuda o cérebro a manter o foco e facilita a tomada de decisões. Já esquecimentos frequentes que passam a prejudicar atividades do dia a dia precisam de avaliação médica.
O neurologista também fez um alerta sobre o excesso de telas, especialmente o consumo contínuo de vídeos curtos e informações nas redes sociais. Na avaliação dele, esse hábito pode prejudicar a concentração e contribuir para alterações no sono e no comportamento.
Entre suas recomendações estão reduzir o tempo diante das telas, ler mais, praticar atividade física e respeitar as necessidades de descanso.
Viver mais é bom. Viver bem é melhor
Quantas pessoas planejam a aposentadoria, fazem investimentos, estabelecem metas para os próximos dez anos, mas não dedicam a mesma atenção à saúde que desejam ter no futuro?
José Hamilton trouxe essa reflexão ao falar sobre longevidade saudável.
“Não adianta você viver com 80 anos e chega com 70 anos, você precisa de três pessoas para te ajudar a tomar um banho, a subir uma escada”, exemplifica.
A preocupação não está apenas na quantidade de anos vividos, mas na capacidade de chegar à velhice com autonomia.
Nesse ponto, os dois convidados concordam: os hábitos construídos ao longo da vida têm um peso importante.
Joaquim destacou especialmente o fortalecimento muscular. Para explicar a importância da atividade física aos pacientes, costuma fazer uma pergunta que dispensa grandes explicações.
“Mas o que que seria melhor envelhecer com músculo ou sem músculo?”
A resposta parece óbvia, mas nem sempre se transforma em atitude.
O médico lembra que preservar a musculatura, dormir bem e manter uma alimentação equilibrada são cuidados que contribuem para uma vida mais saudável com o passar dos anos.
Não se trata de mudar tudo de uma vez ou seguir uma rotina perfeita, mas de entender que as escolhas feitas hoje podem influenciar a maneira como cada pessoa vai envelhecer.
E quem cuida da saúde de quem faz a empresa acontecer?
No mundo dos negócios, metas são indispensáveis. Há planejamento financeiro, estratégias de crescimento, indicadores de desempenho e prazos a cumprir.
Mas José Hamilton levanta uma questão que raramente aparece nessas planilhas: onde entra a saúde das pessoas?
Para o neurologista, o bem-estar de quem trabalha também interfere no funcionamento de uma empresa. Funcionários que enfrentam problemas de sono, dificuldades emocionais ou condições de saúde sem acompanhamento podem ter sua qualidade de vida e sua capacidade de trabalho prejudicadas.
Por isso, ele defende que as lideranças também participem dessa conversa, com ações de conscientização, incentivo à leitura, orientações sobre hábitos saudáveis e estímulo à prevenção.
O objetivo não é transferir às empresas a responsabilidade individual pela saúde, mas reconhecer que o ambiente profissional pode contribuir para escolhas melhores.
Afinal, uma empresa depende de pessoas. E pessoas precisam de muito mais do que produtividade para viver bem.
Perto do fim da conversa, Anna fez uma pergunta aos dois médicos: por onde começar quando a pessoa percebe que passou tempo demais deixando a própria saúde em segundo plano?
A resposta foi mais simples do que muitos imaginam.
“Nunca é tarde, né? Se você tem 70 anos e nunca procurou um médico, […] pode ser que você está tendo alguma coisa silenciosa”, alerta José Hamilton.
O neurologista orienta procurar avaliação médica e destaca que até uma conversa com os profissionais da unidade básica de saúde pode ser o primeiro passo.
Joaquim reforça a importância do acompanhamento ao longo da vida e lembra que atividade física, alimentação e sono de qualidade precisam fazer parte das prioridades.
No fim, talvez a maior dificuldade não esteja em saber o que precisa mudar. Grande parte das pessoas já sabe que deveria dormir melhor, se movimentar mais e procurar atendimento quando algo não vai bem.
O desafio é transformar esse conhecimento em atitude.
Porque a empresa pode precisar de você amanhã. A família também. Os projetos, os sonhos e os compromissos certamente continuarão na agenda.
Mas, para estar presente em tudo isso, existe alguém que também precisa receber atenção hoje: você.
Confira o episódio completo
