A violência contra a mulher continua entre as ocorrências mais atendidas pela Polícia Militar em Orleans. No primeiro semestre de 2026, os registros de descumprimento de medidas protetivas no município e na região de atuação da soldado Patrícia Ribeiro Santos quase alcançaram todo o volume contabilizado durante 2025. Para a integrante da Rede Catarina de Proteção à Mulher, o aumento dos registros também está relacionado à maior informação e à segurança das vítimas para denunciar.
A Rede Catarina é um programa institucional da Polícia Militar criado para oferecer um atendimento diferenciado às ocorrências de violência doméstica. O trabalho é voltado principalmente ao acompanhamento de mulheres que possuem medidas protetivas determinadas pela Justiça e tem caráter preventivo.
Segundo Patrícia, o acompanhamento começa depois que uma ocorrência de violência é registrada pela Polícia Militar ou pela Polícia Civil e o caso é encaminhado ao Poder Judiciário. A partir da comunicação processual, a equipe da Rede Catarina inicia o contato com a vítima, presta orientações e passa a realizar o acompanhamento preventivo.
“Uma mulher que vem para a Rede é uma mulher que já sofreu a violência. E essa violência acabou demandando registro de uma ocorrência, seja pela Polícia Civil ou pela Polícia Militar”, explica.
O acompanhamento pode ocorrer presencialmente ou por telefone e WhatsApp, conforme a situação. Nos casos considerados mais graves, Patrícia também conta com o apoio das guarnições de rádio patrulha, inclusive em situações em que é necessário auxiliar a vítima na retirada de seus pertences.
Medo ainda é um dos principais obstáculos
Um dos desafios apontados pela policial é o medo das vítimas. Segundo Patrícia, muitas mulheres vivem situações graves de violência, mas recuam diante da possibilidade de uma reação do agressor, principalmente quando existe o risco de prisão.
“Muitas delas vivem em um contexto muito grave de violência e, quando sabem que existe o risco de uma prisão preventiva para o agressor, o medo delas é: ‘Patrícia, quando ele sair? O que vai acontecer?’”, relata.
De acordo com ela, ameaças de vingança podem fazer com que a vítima peça a revogação da medida protetiva. A reincidência também dificulta o combate à violência doméstica, já que, em alguns casos, o agressor continua praticando novos atos mesmo após a primeira intervenção policial.
Patrícia reforça ainda que a Rede Catarina não atua sozinha. Em Orleans, o trabalho envolve a Polícia Militar, a Polícia Civil e outros órgãos e instituições. Segundo ela, já foram realizadas prisões decorrentes de descumprimento de medidas protetivas em ações conjuntas entre as forças de segurança.
Mais denúncias também revelam mais informação
O aumento dos registros não significa necessariamente que todos os casos de violência estejam aumentando na mesma proporção. Para Patrícia, a maior divulgação de informações pode fazer com que mais mulheres reconheçam situações de violência e procurem ajuda.
“Eu preciso que o problema venha à luz para que nós consigamos desenvolver uma estratégia adequada para reduzir esse índice com efetividade, com planejamento e com estratégia”, afirma.
Segundo a policial, conhecer a dimensão real do problema permite que as forças de segurança desenvolvam ações preventivas mais eficientes. Ela destaca que a ausência de denúncias não significa necessariamente ausência de violência.
Em Orleans, a Rede Catarina também participa de ações de orientação e conscientização. Nesta semana, o programa esteve na Câmara de Vereadores durante uma palestra relacionada à criação da Procuradoria da Mulher e ao enfrentamento e prevenção da violência contra a mulher. O encontro reuniu mulheres que possuem medidas protetivas, além de representantes de iniciativas voltadas ao enfrentamento da violência.
Durante a atividade, Patrícia ouviu o relato de uma mulher de 70 anos que contou ter voltado a estudar. Para a policial, histórias como essa mostram que, além da proteção, o acompanhamento pode ajudar mulheres a retomarem projetos e sonhos que ficaram interrompidos durante períodos de violência.
“Eu voltei a estudar. Estou muito feliz porque hoje estou concretizando um sonho”, contou a mulher durante o encontro, segundo a soldado Patrícia.