O que prepara um profissional para o futuro? Papo Empreendedor estreia 6ª temporada
A sexta temporada do Papo Empreendedor começa colocando uma questão cada vez mais presente no mercado de trabalho: o que realmente prepara um profissional para o futuro? Conhecimento técnico, domínio das novas tecnologias ou capacidade de lidar com pessoas? No primeiro episódio da nova temporada, o programa reúne essas diferentes perspectivas em uma conversa sobre educação profissional, inovação, inteligência artificial e relações humanas.
Anna, recebe a psicóloga e presidente da Associação Empresarial de Orleans, Vanesa Bagio, como coentrevistadora. O convidado é Diogo Martins, CEO do IBREP – Escola Imobiliária, que atua há cerca de duas décadas na educação profissional voltada ao mercado imobiliário. Ele também integra o Conselho Estadual de Educação de Santa Catarina e foi reconhecido por dois anos consecutivos entre os 100+ Influentes do Mercado Imobiliário, na categoria Inovação.
A nova temporada terá oito encontros, com uma nova coentrevistadora participando de cada episódio. A proposta é ampliar os olhares sobre negócios, carreira, escolhas e as transformações que atingem o mercado.
Ao falar sobre sua trajetória, Diogo conta que começou há 20 anos como office boy, quando a instituição ainda era pequena e tinha apenas um escritório em Florianópolis. Com o passar do tempo, assumiu novas funções, apresentou ideias e acompanhou o crescimento da empresa, até chegar ao cargo de CEO.
A grande mudança, segundo ele, ocorre durante a pandemia. Na época, Diogo já fazia parte da direção da instituição e precisou assumir a liderança em um período marcado por incertezas. O momento acabou acelerando um processo de transformação que já estava em curso.
“Dali eu pude implantar as minhas ideias, implementar com mais rapidez o processo de transformação, não porque eu queria ser rápido, mas sim porque o momento obrigava que nós tivéssemos essa mudança muito rápido”, afirma.
A expansão veio acompanhada da autorização de uma faculdade pelo MEC, da ampliação da atuação da instituição e de investimentos em inovação e educação profissional.
Formação profissional precisa acompanhar as mudanças
Para Diogo, um dos principais problemas históricos da formação de corretores de imóveis está justamente na distância entre aquilo que é exigido pela legislação e as necessidades reais do mercado.
Ele explica que, para atuar como corretor de imóveis, é necessária uma formação específica, como o curso técnico de Transações Imobiliárias, tecnólogo ou graduação na área. No entanto, durante anos, a estrutura curricular permaneceu muito básica diante das transformações tecnológicas e comportamentais do setor.
A partir dessa percepção, o IBREP realizou uma pesquisa ouvindo imobiliárias, construtoras, incorporadoras, órgãos reguladores, corretores em diferentes estágios da carreira e também compradores de imóveis. O resultado levou à ampliação da grade curricular da instituição, que passou de oito para 17 disciplinas e de oito para 45 professores no curso técnico.
Uma das principais conclusões da pesquisa foi a necessidade de colocar as pessoas no centro da formação.
“Como é que eu não vou entender sobre relações humanas?”, questiona Diogo ao explicar que a atividade do corretor não se resume à apresentação de imóveis. Para ele, o profissional atua na intermediação entre pessoas que estão tomando decisões que, muitas vezes, envolvem patrimônio, segurança e projetos de vida.
A formação passou, então, a incluir aspectos relacionados ao comportamento do cliente e à compreensão das diferentes motivações que levam uma pessoa a comprar, vender ou investir em um imóvel.
Diogo destaca que o profissional precisa entender, por exemplo, se está diante de uma família em busca da casa própria ou de um investidor interessado em rentabilidade. “Ele precisa entender a necessidade daquela pessoa. Eu estou investindo em uma coisa, estou comprando para mim, é outra. Muitas vezes, o imóvel vai ser a compra da vida da pessoa”, explica.
Inteligência artificial entra na formação dos futuros corretores
Diogo afirma que não existe mais espaço para uma formação profissional que ignore o ambiente digital, especialmente em um mercado no qual grande parte das transações passa pela internet.
O IBREP passou a incorporar ferramentas de inteligência artificial à formação dos alunos. Entre as possibilidades apresentadas estão recursos para produção de imagens e roteiros, análise de contratos, avaliação de financiamentos e análise de perfis em redes sociais profissionais.
A instituição também desenvolveu uma plataforma de simulação para que os estudantes possam praticar situações próximas às que encontrarão no mercado.
A ferramenta identifica o perfil profissional do aluno e propõe situações de atendimento a diferentes tipos de clientes. A partir das respostas, por texto ou áudio, o sistema avalia o desempenho e aponta pontos que precisam ser desenvolvidos.
Segundo Diogo, a proposta é evitar que o estudante chegue ao mercado apenas com um diploma, sem ter desenvolvido as competências necessárias para lidar com situações reais.
A tecnologia, entretanto, não aparece na conversa como substituta das relações humanas. Pelo contrário: a humanização é apontada como uma das competências que ganham ainda mais importância diante do avanço da inteligência artificial.
Aprender continuamente passa a ser uma necessidade
Durante a entrevista, Diogo também defende a ideia de Life Long Learning, ou aprendizagem ao longo da vida. Para ele, a velocidade das transformações faz com que o conhecimento adquirido em determinado momento perca valor se não for constantemente atualizado.
Ele resume essa percepção comparando a desatualização profissional à inflação monetária: assim como o dinheiro pode perder poder de compra ao longo do tempo, o conhecimento também pode perder valor quando o profissional deixa de aprender.
“Se você não continuar aprendendo, o que você sabe hoje perde valor”, afirma.
A curiosidade aparece, para Diogo, como uma característica fundamental para quem pretende acompanhar esse processo. Ele conta que procura aprender diariamente, seja por meio de pesquisas, leituras ou novas ferramentas digitais.
No Conselho Estadual de Educação de Santa Catarina, onde foi nomeado em 2024 para um mandato de seis anos, Diogo também atua na Comissão de Educação a Distância. A experiência, segundo ele, amplia sua visão sobre os desafios da educação e sobre a necessidade de conciliar tecnologia, regulamentação e qualidade.
Ele defende uma educação a distância mais regulada, justamente para evitar que instituições utilizem brechas da legislação para oferecer cursos sem garantir a qualidade necessária.
O profissional precisa ser multifuncional
Ao projetar as competências que devem diferenciar os corretores nos próximos anos, Diogo aponta primeiro para a capacidade de adaptação.
Inspirado em uma conhecida ideia atribuída à teoria da evolução, ele afirma que não é necessariamente o profissional mais forte ou mais inteligente que consegue avançar, mas aquele que apresenta maior capacidade de se adaptar às mudanças.
No mercado imobiliário, essa adaptação passa pelo domínio de diferentes áreas. O corretor precisa compreender marketing digital, produção de conteúdo, anúncios, ferramentas de inteligência artificial, finanças, financiamento, arquitetura e características técnicas dos imóveis.
“Ele é um profissional multifuncional”, resume.
Além do conhecimento técnico, porém, Diogo destaca a necessidade de desenvolver habilidades relacionadas às pessoas. Comunicação, relações humanas e compreensão do comportamento do cliente entram como competências indispensáveis para uma profissão baseada essencialmente na intermediação.
A conversa também aborda um aspecto menos glamouroso da profissão: a quantidade de negativas que um corretor pode enfrentar até concretizar uma venda.
Diogo explica que o profissional pode levar, em média, cerca de seis meses para realizar a primeira venda. Como normalmente não possui salário fixo, precisa estar preparado para um período inicial de investimento e incerteza financeira.
Por isso, a inteligência emocional e a organização financeira são consideradas fundamentais.
A profissão pode proporcionar ganhos elevados, especialmente em um mercado imobiliário aquecido como o de Santa Catarina, mas a renda não é linear. O corretor pode ter períodos de grande retorno e outros sem vendas.
Para Diogo, essa realidade exige que o profissional desenvolva resiliência e compreenda que a carreira precisa ser administrada como um negócio.
Inovação vai além da tecnologia
Reconhecido por dois anos consecutivos entre os 100+ Influentes do Mercado Imobiliário na categoria Inovação, Diogo atribui parte desse reconhecimento ao processo de transformação desenvolvido dentro do IBREP.
Para ele, inovação não significa necessariamente utilizar uma nova tecnologia. Ela também pode estar em um processo, na forma de atender o cliente ou na maneira como uma empresa organiza suas operações.
Um dos exemplos citados foi a mudança de perspectiva dentro da instituição: em vez de pensar apenas em como tornar os processos mais fáceis para os funcionários, a empresa passou a observar como poderia tornar a jornada do aluno melhor.
Indicadores de satisfação, redução da evasão, acompanhamento de resultados e uso de dashboards passaram a fazer parte dessa estratégia. Agora, a inteligência artificial também é utilizada para analisar dados e indicar possíveis pontos de atenção.
Na avaliação de Diogo, tecnologia, processos e pessoas precisam caminhar juntos para que a inovação gere resultados concretos.
Em um mercado cada vez mais digitalizado, a formação técnica continua sendo necessária, mas deixa de ser suficiente. A capacidade de aprender continuamente, adaptar-se, compreender o comportamento humano e utilizar a tecnologia de maneira estratégica aparece como parte essencial da preparação para o futuro profissional.
E, em meio a tantas mudanças, permanece uma questão levantada ao longo da conversa: quanto mais a tecnologia avança, maior pode ser a importância daquilo que nenhuma ferramenta consegue substituir completamente — a capacidade de compreender e se relacionar com outras pessoas.
Conheça um pouco mais sobre Diogo
- Educação em uma palavra? IBREP
- Inovação é oportunidade ou responsabilidade? Os dois
- Uma competência inegociável para o corretor? Ética
- Uma característica essencial em um líder? Senso de justiça
- Um erro que se transformou em aprendizado? Ter investido em uma tecnologia que ainda não estávamos preparados para usá-la
- O que a tecnologia nunca vai substituir? As pessoas
- Um hábito que sustenta sua rotina? Estar com a minha família
- Um livro que marcou sua trajetória? Ah Se Eu Soubesse, de Richard Edler
- Uma pessoa que inspira você? Celso Pereira Raimundo, meu tio
- Uma qualidade que você busca em uma equipe? União
- Uma tendência que merece atenção? A IA
- Razão ou intuição? Intuição, apesar de muitas vezes precisar usar a razão
- Ensinar ou aprender? Aprender
- Onde você se vê daqui a cinco anos? Que minha instituição esteja atuando de forma nacional e no mercado americano
- Qual marca você quer deixar no mercado imobiliário? Da valorização da profissão, através da educação
Confira o episódio completo




