Ele acordou tetraplégico aos 23 anos. Meses depois, mexeu o dedão do pé e mudou a história da medicina
O nome de Bruno Drummond Freitas passou a ser conhecido em todo o país após ele se tornar o primeiro paciente do mundo a receber a polilaminina e voltar a andar depois de uma lesão grave na medula.
A substância é resultado de mais de 30 anos de pesquisa coordenada pela cientista Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e vem sendo apontada como uma das iniciativas mais promissoras da ciência brasileira na área de regeneração neurológica.
Em entrevista ao Jornal da Guarujá, Bruno contou detalhes do acidente que mudou sua vida e do processo de recuperação que surpreendeu médicos e pesquisadores.
O acidente e a tetraplegia
Em 2018, aos 23 anos, Bruno seguia de São Paulo para Teresópolis com a família, quando sofreu um grave acidente de carro. Ele estava deitado no banco traseiro, sem cinto de segurança, quando o veículo capotou após seu pai cochilar ao volante.
Bruno fraturou a vértebra cervical na altura de C6. “Eu não lembro de nada do acidente. Só acordei depois da cirurgia, já sem mexer nada”, relatou.
Ele acordou no hospital tetraplégico, com apenas um leve reflexo no ombro. “Foram 23 anos sendo superativo, fazendo musculação, levando uma vida normal. E, de repente, eu acordei sem conseguir mexer nada. A sensação é de que a vida acabou”, afirmou.
Antes mesmo da cirurgia, a família foi informada de que o caso de Bruno se encaixava em um estudo experimental conduzido na UFRJ. A decisão de incluí-lo na pesquisa foi tomada enquanto ele ainda estava desacordado.
“Me contaram depois que eu tinha entrado num estudo promissor, que já tinha sido testado em animais e não apresentava efeitos colaterais”, disse.
A aplicação da polilaminina ocorreu em menos de 24 horas após o acidente — fator que, segundo ele, pode ter sido determinante para o resultado.
Cerca de três semanas após o acidente, veio o primeiro sinal de recuperação: o movimento do dedão do pé direito.
“Eu mexi o dedão do pé e nem percebi. Meu tio viu e chamou os médicos. Eles ficaram muito emocionados. Eu pensava: o que adianta mexer só o dedão?”, contou.
Segundo os médicos, o movimento era um marco importante. Significava que o sinal do cérebro havia percorrido toda a extensão da medula até a extremidade do corpo.
“Quando me explicaram isso, foi uma virada de chave. Ali eu entendi que podia haver esperança”, relatou.
A evolução continuou com fisioterapia intensiva, eletroestimulação e acompanhamento especializado. Dois meses após o acidente, Bruno já conseguia se manter sentado sem cair para os lados. Depois, vieram os movimentos nos braços e nas pernas.
Ele passou por reabilitação intensiva em centros especializados e ficou dois anos afastado do trabalho focado exclusivamente na recuperação.
Hoje, Bruno afirma ter vida praticamente normal. “Sou 100% independente. Dirijo carro manual, cozinho, trabalho, faço natação, trilha. Tenho dificuldade para correr e algumas sequelas, mas perto do que eu passei não é nada.”
O estudo já foi aplicado em oito pacientes. Cinco apresentaram recuperação motora em diferentes níveis, mas o caso de Bruno é considerado fora da curva.
“Minha recuperação foi muito acima da média. Meu atendimento foi rápido, fiz cirurgia cedo, tive acesso imediato ao tratamento e fisioterapia de alto nível. Isso tudo fez diferença”, avaliou.
Ciência e esperança
Bruno afirma que só recentemente compreendeu a dimensão do impacto do caso. “Eu não tinha noção da magnitude disso para a humanidade. Só no ano passado percebi o quanto isso pode ser importante.”
Ele também defende que o debate permaneça centrado na ciência. “Acho que a gente tem que evitar politizar ou levar para religião ou polêmica. O foco precisa ser o estudo, a evolução da pesquisa e o benefício para as pessoas.”
Ao falar sobre sua trajetória, Bruno resume a experiência como resultado de dois fatores. “Eu costumo dizer que foram dois milagres: o milagre de Deus, que colocou as pessoas certas no meu caminho, e o milagre da ciência, que fez a polilaminina funcionar no meu corpo.”
A pesquisa segue em ampliação de amostras para consolidar os resultados clínicos e avançar nas etapas científicas necessárias para validação do tratamento.
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