Muito antes do turismo, uma família apostou na Serra Catarinense
A história da Churrascaria Cascata acompanha o crescimento do turismo e da gastronomia como motores da economia regional.
Em poucas horas de viagem, Santa Catarina oferece uma mudança de cenário que poucos estados conseguem reunir em tão curta distância. O calor do litoral dá lugar ao frio dos campos de altitude, a vegetação muda, a culinária ganha novos sabores e a paisagem se transforma em um dos cartões-postais mais conhecidos do país: a Serra do Rio do Rastro.
Ligando o litoral ao Oeste catarinense, a rodovia se tornou um dos principais corredores turísticos do Estado e impulsionou uma economia que vai muito além das pousadas e hotéis. Restaurantes, produtores rurais, vinícolas e pequenos empreendedores encontraram na força do turismo uma oportunidade de crescimento. Entre eles está a Churrascaria Cascata, em Bom Jardim da Serra, empreendimento familiar que acompanha essa transformação há quase quatro décadas.
Fundado em 1988, o restaurante nasceu quando a região ainda dava os primeiros passos na atividade turística. A história começou antes mesmo da abertura das portas, quando o agricultor Mauro Moreira decidiu trocar a faculdade de Agronomia pelo trabalho no campo, cultivando batata e milho em terras da família.
Foi vendendo pinhão às margens da rodovia que surgiu a oportunidade de um novo negócio. “As pessoas paravam para comprar pinhão e sempre faziam a mesma pergunta: onde tem um lugar para comer? Meu pai percebeu que a Serra precisava de uma churrascaria e resolveu apostar nessa ideia”, lembra Jaime Gabriel Carvalho Moreira, que hoje representa a segunda geração da família à frente da empresa.
Na época, a decisão parecia ousada. A infraestrutura turística era limitada e poucos enxergavam o potencial econômico da Serra Catarinense. Enquanto muitos viam apenas uma estrada de passagem, a família apostava que a região se tornaria um destino turístico.
Hoje, a Churrascaria Cascata recebe entre quatro mil e oito mil clientes por mês. Julho segue concentrando o maior movimento, mas a diferença entre as temporadas diminuiu nos últimos anos, reflexo dos investimentos em marketing e da consolidação da Serra Catarinense como destino turístico ao longo de todo o ano. Para atender à demanda, o restaurante mantém cerca de 20 colaboradores fixos e reforça a equipe com profissionais temporários, chegando a mobilizar até 40 pessoas nos fins de semana de maior fluxo.
Em um município com pouco mais de quatro mil habitantes, o volume de empregos gerados por um único restaurante ajuda a dimensionar o peso do turismo na economia local e a dependência crescente da cidade em relação ao fluxo da Serra do Rio do Rastro.
O crescimento do restaurante acompanhou a consolidação da Serra do Rio do Rastro como um dos destinos turísticos mais visitados de Santa Catarina. Para Jaime, a localização privilegiada explica parte desse movimento. “Estamos a cerca de 100 quilômetros do litoral. Em poucas horas, o turista muda completamente de cenário. Muda a vegetação, a culinária, o clima, a cultura. Você pode passar a manhã na praia e, à tarde, estar vivendo uma experiência totalmente diferente na Serra”, afirma.
Mais do que servir refeições, o restaurante passou a integrar o roteiro de quem visita Bom Jardim da Serra. O cardápio valoriza ingredientes que ajudam a contar a história da região, como o pinhão, as carnes de animais criados em pastagens serranas, o arroz de carreteiro e o tradicional entrevero. “O cliente não vem só para comer. Ele quer conhecer a nossa cultura, provar os sabores da Serra e viver essa experiência”, diz.

O sucesso de uma empresa familiar que atravessa quase quatro décadas passa por princípios que pouco mudaram ao longo dos anos. “É constância, disciplina e muito trabalho. Restaurante funciona todos os dias. Empreender no Brasil nunca foi fácil. Tem burocracia, impostos e muitos desafios, mas é justamente nos momentos difíceis que a gente precisa mostrar a nossa capacidade”, afirma.
Entre os principais obstáculos da atualidade está a formação de equipes. Segundo ele, manter profissionais qualificados exige investimento permanente em treinamento e atualização. “O maior desafio hoje é a mão de obra. A gente precisa estar sempre treinando a equipe para entregar um atendimento cada vez melhor”, diz.
Essa preocupação reflete uma mudança no próprio perfil do turismo. Se antes o visitante fazia uma parada rápida durante a viagem, hoje procura experiências completas. O atendimento, a gastronomia, a paisagem e a hospitalidade passaram a ter o mesmo peso na decisão de voltar. “Eu sempre digo para a equipe que o cliente chega como cliente, mas precisa sair como amigo. Quando isso acontece, ele volta e ainda recomenda o restaurante”, afirma.
A valorização dos produtos regionais também fortalece uma cadeia que beneficia produtores locais e ajuda a manter viva a identidade gastronômica da Serra Catarinense. Para Jaime, preservar essa essência é tão importante quanto investir na estrutura do negócio. “A gente quer que as pessoas conheçam a Serra de verdade. Não é só pela comida. É pela paisagem, pelos vinhos, pelo pinhão, pelas cachoeiras, pelos cânions e pela forma como a gente recebe quem chega”, diz.
Ao longo de quase 37 anos, a Churrascaria Cascata viu a Serra Catarinense ganhar espaço no mapa do turismo brasileiro. E, na visão do empresário, esse processo ainda está longe de atingir o seu potencial máximo. “Meu pai dizia que a Serra tinha um futuro enorme. Hoje eu acredito na mesma coisa. Quero ver Bom Jardim da Serra e toda a nossa região entre os destinos mais procurados do Brasil”, afirma.

