Setembro Amarelo: por que tantos homens ainda têm dificuldade para pedir ajuda?
Em Santa Catarina, homens representaram 76% das mortes por suicídio em 2023; especialista explica os fatores que dificultam a busca por ajuda e orienta como familiares podem agir diante dos sinais de alerta
Nesta quinta-feira (10), é lembrado o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, data que faz parte das ações do Setembro Amarelo e reforça a importância de falar sobre saúde mental, ouvir sem julgamentos e buscar ajuda diante de situações de sofrimento emocional.
Em Santa Catarina, os números chamam a atenção. Os registros de suicídio passaram de 769 em 2020 para mais de 960 em 2023, um aumento de aproximadamente 25%. Naquele ano, 76% das vítimas eram homens.
Mas por que ainda é tão difícil para muitos homens falar sobre o que sentem e pedir ajuda?
Para a psicanalista e psicoterapeuta sistêmica Bianca dos Anjos, questões culturais ainda fazem com que muitos homens associem a demonstração de vulnerabilidade à fraqueza.
“Demonstrar vulnerabilidade, como angústia ou chorar, ainda é associado culturalmente à fraqueza. Isso faz com que muitos homens acabem engolindo esse sofrimento e recorram ao isolamento ou até mesmo ao uso de substâncias, ao invés de dar vazão a essa angústia, a esse sofrimento, ao invés de falar”, explica.
Entre crianças e adolescentes de 10 a 19 anos, Santa Catarina registrou mais de 8 mil tentativas de suicídio em 2023. Diante desses números, a especialista destaca a importância de pais e responsáveis observarem mudanças no comportamento.
O alerta pode aparecer quando o adolescente começa a se afastar de atividades que antes gostava, apresenta queda no rendimento escolar ou passa a falar sobre desesperança.
“O sinal de alerta acende quando ele se afasta das coisas que amava fazer, apresenta queda no rendimento escolar ou fala frases de desesperança”, orienta Bianca.
Nessas situações, segundo ela, a aproximação deve acontecer com acolhimento, curiosidade e afeto, e não com críticas ou julgamentos.
O que dizer e o que evitar
Na tentativa de ajudar alguém que está sofrendo, algumas frases podem acabar aumentando a culpa e fazendo com que a pessoa se feche ainda mais.
Expressões como “você tem tudo na vida”, “isso é falta de fé” ou “olha quanta gente em situação pior que a sua” podem passar a impressão de que aquele sofrimento não é legítimo.
“Isso acaba invalidando a dor do indivíduo e gerando ainda mais culpa e sofrimento para essa pessoa que já está vivenciando esse momento de fragilidade”, explica a psicoterapeuta.
Em vez de tentar resolver o problema imediatamente ou oferecer conselhos prontos, Bianca orienta que familiares e amigos ofereçam presença e espaço para conversa.
Uma pergunta simples pode ser um primeiro passo: “Você não precisa passar por isso sozinho. Como eu posso te apoiar?”
Onde buscar ajuda
A orientação é procurar atendimento profissional quando houver sofrimento emocional ou sinais de alerta. A rede pública oferece atendimento por meio das Unidades Básicas de Saúde, CAPS, UPAs, hospitais e outros serviços de saúde. Em situações de emergência, também é possível acionar o SAMU pelo 192.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) também oferece apoio emocional gratuito, sigiloso e 24 horas pelo telefone 188.
A campanha do Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio em 2026 reforça justamente a importância de mudar a forma como o assunto é tratado, reduzindo o estigma e incentivando conversas abertas e acolhedoras.


