De uma mala de joias à construção de duas empresas: Julia Dagostim conta sua trajetória no Fora do Ar
Em episódio que marca a chegada de Anna Cardoso à apresentação, empresária fala sobre empreendedorismo, maternidade e os desafios de construir a Damma Joias e a Damma Ótica
Antes da loja física, da oficina própria e da recém-inaugurada ótica, existia uma mala de joias, um perfil nas redes sociais e a vontade de empreender. Foi assim que começou a trajetória de Julia Dagostim Nuernberg, empresária de Criciúma que está à frente da Damma Joias e da Damma Ótica. Sua história foi apresentada em mais um episódio do programa Fora do Ar, que chega com uma novidade: Anna Cardoso assume a apresentação e conduz a conversa com a convidada.
Julia falou sobre os desafios de deixar um emprego estável, construir uma empresa, enfrentar mudanças na sociedade e conciliar o crescimento profissional com a maternidade. Também compartilhou momentos delicados da vida pessoal, como a perda da primeira gestação, as dificuldades emocionais após o nascimento da filha e a descoberta de um problema de visão que ajudou a dar origem ao novo negócio da família.
Formada em Administração, Julia trabalhou durante sete anos em uma multinacional. Apesar da segurança financeira, a possibilidade de construir algo próprio começou a ganhar espaço depois de conversas com o marido, Ramon, que já atuava no comércio atacadista de joias.
Ele vendia para diferentes regiões de Santa Catarina, mas tinha pouca presença no mercado de Criciúma. Foi então que surgiu a ideia de abrir uma empresa voltada ao consumidor final. Para Julia, porém, a mudança representava abrir mão de uma rotina conhecida e de benefícios que considerava importantes.
“Eu tinha medo de sair do CLT porque me garantia um salário fixo, me garantia benefícios, uma estabilidade financeira”, contou.
Como ainda tinha receio de começar sozinha, convidou a amiga Larissa para dividir o negócio. As duas montaram uma mala com joias e começaram a visitar clientes, enquanto investiam na divulgação pelo Instagram. Fotografavam os produtos, montavam combinações e publicavam os preços, algo que Julia considerava importante para aproximar o público das peças em ouro.
A proposta era mostrar que as joias não precisavam ser vistas como produtos destinados apenas a um grupo restrito de consumidores. Aos poucos, as publicações atraíram seguidores e os pedidos aumentaram.
A procura ficou tão grande que, em determinado Natal, Julia precisou organizar horários para receber clientes dentro da própria casa. A solução funcionou por algum tempo, mas o movimento constante de pessoas tornou necessário procurar outro espaço.
Foi assim que surgiu o primeiro showroom da Damma Joias, instalado no nono andar de um prédio comercial. A escolha provocou questionamentos sobre a dificuldade de atrair clientes para uma sala tão distante da rua. A resposta veio na inauguração, quando o corredor ficou cheio e o pequeno espaço não conseguiu acomodar todas as pessoas que apareceram.
O resultado mostrou a força da comunidade que a marca havia construído nas redes sociais. Em pouco tempo, o showroom também ficou pequeno, e a empresa passou a ocupar uma sala no primeiro andar do mesmo empreendimento.
Mas Julia e Ramon tinham outro objetivo: criar uma oficina própria. Até então, parte dos serviços dependia de profissionais terceirizados, o que limitava o controle sobre os prazos e a execução dos trabalhos. O casal decidiu manter a antiga sala para transformar o espaço em oficina, após investir em equipamentos e encontrar profissionais para a atividade.
Com essa estrutura, a Damma Joias passou a oferecer também a produção e a personalização de peças em ouro 18 quilates, área que Julia decidiu manter como especialidade da empresa.
Entre o crescimento da empresa e os desafios da maternidade
Enquanto a marca crescia, a vida pessoal da empresária passava por mudanças importantes. Julia contou que sempre desejou ser mãe, mas a primeira gestação terminou com a perda do bebê. A experiência mudou a forma como ela e Ramon passaram a enxergar os planos para a família.
Posteriormente, Julia engravidou de Laura durante a pandemia de Covid-19. Além das preocupações daquele período, ela contraiu a doença durante a gravidez.
Ao mesmo tempo, precisou lidar com uma mudança inesperada na empresa. Larissa, que também havia se tornado mãe, decidiu deixar a sociedade porque a rotina de deslocamentos até Criciúma se tornou difícil com a chegada do filho.
Julia ainda estava grávida quando recebeu a notícia. As duas haviam planejado o futuro do negócio juntas, e a possibilidade de assumir novas responsabilidades provocou insegurança.
“Eu chorei alguns dias seguidos pensando em como eu faria”, relembrou.
A sociedade passou a ser formada por Julia e Ramon. Para manter o funcionamento da empresa, ela contratou funcionárias que, conforme relatou, continuam na equipe desde aquela época.
O nascimento de Laura trouxe outra transformação. Acostumada a trabalhar intensamente e a organizar cada detalhe da rotina, Julia se viu diante de uma realidade que não conseguia controlar.
Ela contou que trabalhou até a noite anterior ao parto e, pouco depois, estava em casa, em recuperação, com uma rotina completamente diferente. Foi nesse período que enfrentou o chamado baby blues, caracterizado por alterações emocionais, tristeza e crises de choro após o nascimento do bebê.
A empresária lembrou de um episódio que aconteceu quando saiu para realizar o teste do pezinho da filha. Ao encontrar uma cliente, respondeu normalmente às perguntas sobre Laura, mas começou a chorar quando foi questionada sobre como ela própria estava.
“Eu desabei no choro”, contou.
Julia explicou que, naquele momento, não compreendia o que estava acontecendo. Mesmo com a filha saudável e cercada de pessoas próximas, sentia uma tristeza que não conseguia explicar.
“Eu gostaria muito de saber porque eu tô chorando, mas eu não sei”, relatou.
A experiência também trouxe reflexões sobre a cobrança que fazia de si mesma. Julia queria manter o mesmo desempenho profissional de antes e, ao mesmo tempo, estar presente em todos os momentos da vida da filha.
Com o passar do tempo, percebeu que precisaria rever suas expectativas.
“Vai ser feito o que eu consegui fazer e a gente vai vivendo um dia após o outro”, afirmou.
Desde o nascimento de Laura, o casal decidiu organizar a rotina para que Julia pudesse reservar as manhãs à filha e trabalhar presencialmente na empresa durante as tardes. A escolha permite acompanhar atividades escolares, preparar o café da manhã e participar de momentos que considera importantes para a infância da menina.
Essa convivência também acabou aproximando a família de milhares de pessoas pelas redes sociais.
Tudo começou com um vídeo em que Julia aparecia sentada no chão, diante do espelho do quarto de Laura, enquanto arrumava o cabelo da filha. A publicação ganhou grande repercussão no TikTok, mesmo sem qualquer planejamento para alcançar tantas pessoas.
A partir daquele momento, outros registros da rotina passaram a atrair seguidores. Muitos começaram a acompanhar as conversas entre mãe e filha e se identificaram com a espontaneidade dos vídeos. Assim surgiu a comunidade das chamadas “titias da Laura”.
Julia explicou que os vídeos não foram criados como uma estratégia comercial. A rotina de cuidados já fazia parte da relação entre as duas, e as publicações apenas passaram a mostrar esses momentos.
Para a empresária, além do carinho recebido, os registros representam memórias que Laura poderá guardar. A exposição também fez com que o público conhecesse melhor a família e, consequentemente, as empresas administradas pelo casal.
Foi outra experiência com a filha que contribuiu para a criação da Damma Ótica.
Durante uma consulta de rotina, Laura foi diagnosticada com ambliopia, condição que compromete o desenvolvimento da visão e pode causar prejuízos permanentes quando não recebe tratamento adequado na infância.
Julia contou que a menina não apresentava sinais que levassem a família a desconfiar de alguma dificuldade para enxergar. Não se aproximava excessivamente da televisão nem demonstrava problemas para identificar objetos.
“E um dia, numa consulta de rotina, a gente descobriu isso. Então, assim, naquele momento, eu perdi o chão”, relatou.
A empresária disse que inicialmente se culpou por não ter percebido o problema, mas recebeu orientações de que a condição poderia passar despercebida sem uma avaliação específica.
A partir do diagnóstico, a família iniciou o acompanhamento de Laura e passou a buscar óculos e lentes adequados ao tratamento. A experiência despertou um interesse maior pela saúde visual e fortaleceu uma ideia que Ramon já apresentava havia algum tempo: abrir uma ótica.
Julia admitiu que inicialmente resistiu à proposta. A Damma Joias já exigia dedicação intensa, e começar outra empresa significaria assumir novos compromissos. A decisão mudou quando surgiu uma sala disponível no mesmo empreendimento onde funcionava a joalheria.
O casal decidiu investir na Damma Ótica com uma proposta voltada à variedade de produtos, à tecnologia e à experiência dos clientes. Durante a entrevista, Julia contou que a loja iniciou as atividades com mais de dois mil óculos, além de opções infantis, modelos de grau e solares e lentes de contato.
Entre os investimentos, destacou um equipamento de medição que auxilia na personalização das lentes conforme as características do rosto e da armação escolhida.
Para ela, a preocupação com o atendimento é tão importante quanto a divulgação da marca.
“Não adianta eu fazer todo um marketing, eu encher a cidade de outdoor, como a gente faz, eu participar de 1000 eventos, como a gente participa, se a pessoa chegar lá na loja e ela não ter uma boa experiência e ela não ter um bom atendimento”, destacou.
A parceria com Ramon também foi abordada durante a conversa. Julia explicou que os dois possuem características diferentes e dividem as responsabilidades conforme suas habilidades. Enquanto ela tem maior afinidade com a comunicação, a produção de conteúdo e o marketing, o marido se destaca nas negociações, no relacionamento comercial e nas questões financeiras.
Apesar da rotina intensa, a empresária reconheceu que ainda enfrenta dificuldades para desacelerar. Contou que costuma aproveitar até os deslocamentos e as viagens para resolver assuntos profissionais, uma característica que também exige atenção para preservar os momentos pessoais.
Ao olhar para o início da trajetória, Julia considera que a transição do emprego formal para o empreendedorismo e a adaptação à maternidade foram os períodos mais difíceis. As duas experiências, porém, ajudaram a mudar sua maneira de lidar com imprevistos e expectativas.
Para quem deseja abrir um negócio, mas ainda espera encontrar as condições ideais, ela deixou um conselho baseado na própria experiência.
“Eu não esperei ter a melhor luz para começar. Eu não esperei ter um espaço lindo para começar. Eu não esperei ter tudo que a gente tem hoje para mim começar. Eu fiz como dava na época e com o que eu tinha na época”, afirmou.
Julia também destacou a importância de não se comparar com outras pessoas e de construir uma identidade própria, tanto na vida pessoal quanto nos negócios.
“Não esperem ter tudo para começar. Comecem do jeito que tá, façam o melhor com o que vocês têm hoje”, aconselhou.
Confira o episódio completo