A Serra Catarinense descobriu que sua maior riqueza não está só na terra, mas nas experiências
Durante muito tempo, a Serra Catarinense foi associada principalmente ao frio, à neve e às paisagens de altitude. Hoje, a região tenta transformar esses atributos em uma economia turística mais ampla, baseada em experiências, gastronomia, cultura e novos negócios capazes de movimentar diferentes setores.
Formada por 18 municípios, a Serra Catarinense reúne diferentes vocações turísticas. Cânions, vinícolas, cachoeiras, produção rural, gastronomia e paisagens naturais passaram a compor uma oferta que vai muito além do inverno e busca atrair visitantes durante todo o ano.
Essa transformação também mudou o papel das empresas que trabalham diretamente com os turistas. A profissionalização do turismo receptivo passou a ser uma peça importante para conectar visitantes aos atrativos da região e ampliar o tempo de permanência na Serra.
Foi ao perceber essa mudança ainda em seus primeiros sinais que a turismóloga e empreendedora Fabíola Torga criou, em 2015, a Faby Tour, agência especializada em turismo receptivo na Serra Catarinense. Depois de atuar na hotelaria em Bom Jardim da Serra, ela identificou que havia uma demanda crescente por passeios organizados, mas pouca oferta de empresas preparadas para atender esse público. “Na época já existiam empresas, mas a demanda era maior. Eu enxerguei essa necessidade e decidi criar uma agência para atender esse público e mostrar um pouco da região para quem chegava aqui”, lembra.

Antes de estruturar a operação, Fabíola realizou um inventário turístico de Bom Jardim da Serra, mapeando atrativos com potencial para se transformar em produtos turísticos. O levantamento também contribuiu para estudos utilizados no planejamento do setor, ajudando a organizar informações sobre as possibilidades de desenvolvimento da atividade na região.
Em pouco mais de uma década, o perfil do visitante mudou. A Serra, que durante muito tempo esteve associada principalmente ao turismo romântico de inverno, passou a receber famílias, grupos de amigos e viajantes interessados em experiências mais completas. A origem dos turistas também se diversificou: se antes Rio Grande do Sul e Santa Catarina concentravam grande parte da procura, hoje estados como São Paulo e Rio de Janeiro ganharam espaço, além da presença de visitantes estrangeiros. “O mercado vem se modificando a cada ano. Começamos atendendo principalmente casais, depois vieram as famílias, mais tarde grupos de amigos e hoje recebemos públicos bastante variados, inclusive quem viaja com animais de estimação”, afirma.
A expansão, no entanto, não eliminou um dos principais desafios do setor: a sazonalidade. O inverno continua sendo a alta temporada, especialmente nos meses de junho, julho e agosto, quando a possibilidade de neve e as baixas temperaturas atraem milhares de visitantes. Já períodos de chuva ou meses de menor procura exigem uma oferta turística mais diversificada.
A resposta veio com a criação de novas experiências que não dependem exclusivamente do clima. Vinícolas, espaços gastronômicos, cafeterias e as chamadas packing houses, estruturas ligadas ao processamento e classificação da maçã, passaram a integrar os roteiros, oferecendo alternativas mesmo nos dias em que trilhas e mirantes ficam prejudicados pelo tempo. “Muitas pessoas não sabem o que é uma packing house. Como a Serra é uma das maiores produtoras de maçã do Brasil, esse processo desperta curiosidade e também faz parte da experiência de quem vem conhecer a região”, explica.
A consolidação do turismo também fez com que cada município encontrasse uma identidade própria dentro da Serra Catarinense. Em vez de oferecer exatamente o mesmo produto, as cidades passaram a construir vocações complementares, aumentando o interesse dos visitantes em permanecer mais dias na região.
Conhecida como a Capital das Águas, Bom Jardim da Serra consolidou sua imagem turística a partir dos cânions, do ecoturismo e da Serra do Rio do Rastro, um dos principais cartões-postais de Santa Catarina. Urubici ganhou força com as paisagens naturais, cachoeiras e mirantes, enquanto São Joaquim ampliou sua presença nacional com o enoturismo e as vinícolas de altitude. “Cada cidade tem um perfil diferente de turista. Bom Jardim da Serra é muito forte nos cânions e no ecoturismo, Urubici nas paisagens naturais e nos roteiros cênicos, enquanto São Joaquim tem uma identidade muito ligada ao enoturismo”, afirma.
Essa diversificação ampliou o impacto econômico da atividade. O turismo deixou de movimentar apenas hotéis e pousadas e passou a gerar oportunidades para restaurantes, vinícolas, produtores rurais, empresas de transporte, guias e empreendimentos voltados às experiências.
Em Bom Jardim da Serra, o turismo já ocupa a terceira posição entre as principais atividades econômicas do município, enquanto cidades como Urubici vêm apresentando uma expansão ainda mais acelerada do setor. O avanço acompanha o crescimento de novos empreendimentos e de uma infraestrutura preparada para receber visitantes durante todo o ano.
Para Fabíola, um dos sinais mais claros dessa transformação está justamente na maneira como os atrativos naturais passaram a se transformar em negócios estruturados. “O maior indicativo desse crescimento é o aumento dos atrativos turísticos. Eles deixam de ser apenas lugares naturais e passam a se tornar empreendimentos, com infraestrutura e equipamentos preparados para receber visitantes”, afirma.
Apesar do potencial, a Serra ainda enfrenta um desafio estratégico: tornar-se mais conhecida fora de Santa Catarina. A região reúne características pouco comuns no turismo brasileiro, como a possibilidade de neve, cânions, vinícolas e paisagens de altitude, mas ainda existe um grande público que desconhece essa oferta. “Nossa perspectiva é que o turismo cresça, mas isso não depende apenas de desejo. Precisamos de uma equipe que consiga tornar o nosso destino conhecido em âmbito nacional. Por incrível que pareça, muitas pessoas no Brasil ainda não sabem que neva aqui, não conhecem a Serra do Rio do Rastro e nem sabem que nós existimos”, afirma.
Mesmo com os desafios, a expectativa do setor é de expansão. A próxima etapa, segundo a turismóloga, passa pelo fortalecimento do turismo de experiência, combinando gastronomia, cultura regional e contato mais próximo com a identidade da Serra. “Eu acredito que o turismo de experiência será o segmento que mais vai crescer, principalmente aliado à gastronomia e à cultura regional. É um caminho que pretendemos fortalecer cada vez mais”, projeta.
Há pouco mais de uma década, a Serra Catarinense era procurada principalmente pelo frio e pelas paisagens. Hoje, continua atraindo visitantes por esses mesmos motivos, mas começa a consolidar uma economia baseada na capacidade de transformar natureza, cultura e produção local em experiências organizadas. É essa passagem da contemplação para a experiência que vem redesenhando o turismo e abrindo novas oportunidades de desenvolvimento nas montanhas catarinenses.
