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Quando os próprios moradores decidiram abrir as porteiras para o turismo

Criada por produtores rurais, a Associação Bonjardinense de Turismo no Espaço Rural (ABTER) ajudou a transformar propriedades tradicionais em empreendimentos turísticos na Serra Catarinense

Por Ligado no Sul13/07/2026 15h42

Antes de existirem chalés, cafés coloniais, cavalgadas e experiências no campo, aquelas propriedades já produziam maçã, criavam gado, cultivavam pequenas lavouras e sustentavam famílias que vivem na Serra Catarinense há várias gerações.

Foi justamente dessa realidade que nasceu, em 2015, a Associação Bonjardinense de Turismo no Espaço Rural (ABTER). A ideia nunca foi substituir a atividade rural, mas criar uma nova fonte de renda para pequenas propriedades sem que elas perdessem sua essência. “O objetivo era aumentar a renda nas pequenas propriedades. O turista vem para viver aquela experiência do rural, para conhecer como as pessoas vivem no espaço rural”, resume Jorge Rodrigues Borges, segundo tesoureiro da ABTER, sócio-fundador da entidade e proprietário do Camping Cânion da Ronda.

A proposta deu certo porque nenhum dos empreendimentos deixou de produzir. Ao contrário. O turismo passou a valorizar justamente aquilo que sempre fez parte do cotidiano das famílias. “Todos os nossos associados continuam sendo propriedades ativas. Eles têm pecuária, pomar de maçã, criação de ovelhas. O turismo veio para agregar. Cada propriedade oferece uma experiência diferente, seja hospedagem, gastronomia, cavalgadas ou passeios”, explica Edna Regina Anastácio, presidente da ABTER e proprietária da Pousada Chalés Aconchego Serrano.

O resultado é um turismo que aproxima visitantes da rotina serrana. Crianças alimentam terneiros, conhecem cavalos, acompanham a colheita da maçã e descobrem, muitas vezes pela primeira vez, de onde vêm os alimentos. “As pessoas gostam de ver como é a vida no campo. Tem criança que nunca tinha visto um animal de perto. Algumas nem imaginam que a fruta nasce no pé”, conta Edna.

Essa transformação também mudou a vida de quem mora na região. Luis Carlos da Silva, conhecido como Didio, é um dos fundadores da associação e proprietário da Laranjeiras Ecoturismo. Durante anos trabalhou com pecuária e chegou a atuar como segurança em um condomínio da região. Nas horas vagas, conduzia cavalgadas pelos caminhos que conhecia desde criança.

Quando percebeu que a procura pelos passeios aumentava, tomou uma decisão que mudaria sua trajetória. “Eu trabalhava à noite na segurança e durante o dia fazia cavalgadas. Quando vi que tinha mais movimento nas cavalgadas, pedi a saída e continuei no turismo.”

Hoje, a maior parte da renda da propriedade vem das atividades ligadas ao turismo. “Posso dizer que 95% da minha renda hoje vem do turismo rural e do ecoturismo. A pecuária representa apenas uma pequena parte.”

Além das cavalgadas, a propriedade passou a oferecer chalés, refeições e passeios pelos cânions da região.

A experiência de Didio não é um caso isolado. Jorge Rodrigues Borges também cresceu em uma propriedade rural onde a principal atividade sempre foi a pecuária de corte. Durante décadas, jamais imaginou que um dia receberia visitantes. “Quando eu era pequeno, nunca pensei que trabalharia com turismo. A energia elétrica chegou na propriedade apenas no ano 2000. Depois que foi implantado o parque eólico, começou a aparecer muita gente querendo conhecer a região. Foi ali que percebemos uma oportunidade.”

Foi nesse momento que a organização coletiva começou a fazer diferença. “A gente percebeu que, se se organizasse, teria um sucesso mais rápido. E foi exatamente o que aconteceu.”

Na prática, a associação passou a funcionar como uma rede de colaboração entre empreendedores. “Não temos concorrentes. Somos parceiros de negócios”, resume Edna.

A lógica é simples. Quando uma pousada está lotada, indica outra propriedade. Se um passeio não pode ser realizado, outro associado recebe o visitante. O mesmo acontece com cavalgadas, hospedagens e experiências rurais. “Quando está cheio, a gente passa o contato do outro. Todos temos os telefones um dos outros. Trabalhando unidos fica muito mais fácil do que cada um sozinho”, explica Didio.

Essa cultura de cooperação também aparece na qualificação dos empreendedores. Segundo Edna, a ABTER construiu uma rede de apoio ao lado da Epagri, do Sebrae e da Secretaria Municipal de Turismo, oferecendo cursos, treinamentos e capacitações para quem decidiu abrir as propriedades ao turismo. “A gente tem cursos, treinamentos e certificações. É um aprendizado contínuo. Sempre aparece uma coisa nova para aprender.”

Embora o turismo tenha crescido rapidamente, a estrutura da associação ainda é construída passo a passo. “Estamos fazendo tudo aos poucos. Ainda estamos estruturando nosso novo Instagram e também um site. Como todos têm seus próprios empreendimentos, a associação vai crescendo conforme as possibilidades.”

Outro aspecto chama atenção: praticamente todos os associados nasceram em Bom Jardim da Serra ou pertencem a famílias tradicionais da região. “Nós somos nativos. São as próprias famílias que estão construindo esse turismo”, afirma Edna.

Essa ligação com o território ajuda a explicar por que a experiência oferecida ao visitante é diferente. Não se trata de criar cenários artificiais ou atrações montadas exclusivamente para turistas. O que está sendo apresentado é a própria rotina do campo, preservada ao longo de gerações.

A história da família de Edna ilustra bem essa relação. Seu pai foi tropeiro e participou da abertura da Serra do Rio do Rastro, conduzindo tropas de animais entre o alto da serra e o litoral, transportando alimentos e mercadorias em uma época em que o acesso era extremamente difícil. “Meu pai ajudou a abrir a Serra do Rio do Rastro. Eles levavam porcos e traziam farinha. Era assim que o abastecimento acontecia.”

Décadas depois, os mesmos caminhos utilizados pelas tropas se transformaram em roteiros turísticos que atraem visitantes interessados justamente em conhecer essa história.

Na avaliação dos integrantes da ABTER, esse é um dos maiores patrimônios da Serra Catarinense. O turismo não substituiu o campo. Ele passou a valorizar aquilo que sempre esteve ali: o trabalho das famílias, a cultura serrana, a produção rural e a paisagem.

Em Bom Jardim da Serra, as porteiras continuam abertas para o gado, para os pomares e para o trabalho no campo. Agora, também recebem visitantes que buscam conhecer um modo de vida que, durante muito tempo, foi visto apenas como rotina por quem nasceu na região e que hoje se transforma em uma das principais riquezas do turismo catarinense.

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