Papo Empreendedor: entre legado e futuro, como crescer sem perder a essência?
No quinto encontro da sexta temporada especial, Priscila Zanette fala sobre sucessão familiar, liderança e os desafios de transformar a Ouro Negro Transportes sem deixar de lado os valores construídos ao longo de 25 anos
Receber uma empresa da família significa encontrar uma história, uma estrutura e um nome já construídos. Mas liderança, autoridade e capacidade de tomar decisões precisam ser conquistadas no dia a dia. Essa foi uma das principais reflexões do quinto encontro da sexta temporada especial do Papo Empreendedor, que recebeu Priscila Zanette, administradora, com MBAs em Gestão Empresarial e Finanças, empresária à frente da Ouro Negro Transportes, empresa que completa 25 anos em 2026, e que também atua na representação do setor de transportes.
Priscila construiu praticamente toda a sua trajetória profissional dentro da Ouro Negro Transportes. Ao longo dos anos, passou por diferentes áreas da empresa até chegar à liderança do negócio, dando continuidade à história iniciada pela família e, ao mesmo tempo, construindo sua própria forma de administrar.
Nesta temporada especial, Anna Cardoso permanece como apresentadora e, a cada episódio, divide a bancada com uma coapresentadora convidada. Neste quinto encontro, quem participou da conversa foi Graziela Gislon, jornalista, fundadora e diretora da Fokus Comunicação Estratégica. Graziela também é professora universitária e possui uma trajetória ligada à comunicação, ao marketing e à gestão de marcas. Ao longo da carreira, atuou por cerca de 20 anos na área de marketing da Librelato e ocupou posições de liderança em entidades empresariais, como a diretoria de Regionalização da ADVB/SC e a presidência do Clube de MKT da ACIC. Atualmente, à frente da Fokus, trabalha com comunicação estratégica, posicionamento, reputação e construção de marcas.
Ao longo da conversa, Priscila compartilhou experiências sobre sucessão familiar, liderança, profissionalização, mudanças na gestão e os desafios enfrentados desde que assumiu a empresa após a morte do pai.
Priscila começou sua trajetória profissional dentro da Ouro Negro ainda jovem. Passou pelo faturamento, Recursos Humanos e contabilidade, até atuar mais próxima do pai durante o processo de preparação para a sucessão. Quando ele faleceu, ela tinha 27 anos e precisou assumir uma posição que, até então, era ocupada por uma figura central para a empresa.
“É muito diferente do seu titular do que seu reserva”, explicou. Segundo ela, durante os nove anos em que trabalhou com o pai, acompanhava as decisões, mas a responsabilidade final permanecia com ele. Com a ausência do empresário, a tomada de decisões passou diretamente para suas mãos.
A primeira atitude foi reunir os líderes da empresa. Priscila conta que reconhecia que muitos deles tinham mais experiência do que ela e poderiam contribuir naquele momento de transição.
“Eu sempre tive uma gestão muito participativa. Nunca fui centralizada”, afirmou. Para ela, a continuidade da empresa dependia da construção de uma equipe capaz de enfrentar aquele período junto.
No primeiro ano, a empresária procurou manter boa parte da forma de trabalho que vinha sendo conduzida pelo pai. Um gestor que havia sido braço direito dele permaneceu ao lado de Priscila e ajudou a transmitir conhecimentos que não estavam registrados formalmente.
Na sucessão de uma empresa familiar, manter os valores construídos ao longo dos anos não significa repetir as mesmas formas de trabalhar. Priscila conta que, ao longo da trajetória, buscou apoio em mentorias, coaching e consultorias para desenvolver sua própria maneira de liderar e entender quais mudanças faziam sentido para a empresa.
Para ela, assumir a gestão não significa conquistar autoridade automaticamente. Esse processo é construído com o tempo, a partir das escolhas e da forma como o líder conduz o negócio.
“A liderança não é uma coisa que se constrói do dia para a noite. É de acordo com as suas atitudes, com os seus valores, com as suas decisões que isso vai sendo construído”, destacou.
A empresária também falou sobre a experiência de assumir uma empresa em um setor predominantemente masculino. Segundo Priscila, houve resistência, embora naquele momento ela não percebesse todas as dificuldades.
“Eu não tinha opção, não tinha como largar aquilo. Eu tinha a opção de fazer ou fazer”, relatou.
Com o passar do tempo, a gestão também mudou. Pessoas que trabalhavam com seu pai foram sendo substituídas conforme novos processos foram implantados e a empresa passou por uma transformação na forma de administrar.
Para Priscila, a modernização precisa preservar os valores da empresa, mas não necessariamente os processos antigos.
“A gente tem que entender o porquê sempre foi assim”, afirmou. Segundo ela, questionar práticas antigas permite identificar se elas continuam resolvendo os problemas para os quais foram criadas ou se apenas passaram a fazer parte da rotina.
Um exemplo citado pela empresária foi a criação do centro de distribuição da Ouro Negro em Itajaí. A decisão representou uma mudança importante para a operação, mas foi tomada depois de avaliar se o modelo fazia sentido para a realidade da empresa.
Na gestão de pessoas, Priscila também defende equilíbrio entre promover profissionais que já fazem parte da equipe e buscar conhecimento no mercado. Quando existe alguém com potencial dentro da empresa, a alternativa é desenvolver esse profissional. Quando a competência necessária não está disponível internamente, ela entende que buscar alguém de fora pode trazer novos conhecimentos e perspectivas.
“Se eu tenho uma expertise que eu estou precisando na empresa, que ninguém internamente tem, eu busco profissional de fora”, explicou.
A empresária também defende que os gestores responsáveis por cada área tenham conhecimento técnico superior ao dela em suas especialidades. Cabe a Priscila, como responsável pela empresa, integrar essas diferentes áreas e tomar as decisões gerais.
“Eu não vou poder discutir a operação da empresa achando que eu sei mais que o meu gerente operacional. Não posso”, afirmou.
Outro ponto abordado foi a relação entre tradição e reputação. Em uma transportadora, segundo Priscila, a confiança do cliente é construída também pela forma como a empresa reage quando algo dá errado.
A orientação que recebeu do pai permanece na gestão: comunicar o cliente rapidamente diante de um problema e buscar uma solução.
“A gente erra rápido e arruma rápido”, resumiu.
Para ela, admitir que uma falha aconteceu permite que o cliente também se organize e participe da solução. A comunicação, nesse caso, passa a fazer parte da própria prestação do serviço.
A presença feminina no setor de transportes também ganhou espaço na conversa. Priscila lembrou que, quando entrou na empresa, havia poucas mulheres. Hoje, a maioria da equipe administrativa é formada por profissionais do sexo feminino.
Ela acredita que a competência não deve ser colocada em dúvida pelo gênero. “Hoje não cabe mais a mulher precisar comprovar que ela sabe”, afirmou, ao lembrar que, no início da carreira, sentia que precisava justificar suas decisões de maneira mais detalhada do que seu pai.
A sucessão familiar, para Priscila, também exige que o sobrenome não seja tratado como substituto da competência. Segundo ela, fazer parte da família não deve ser suficiente para ocupar uma posição de liderança.
“O nome pesa sim, mas o nome não é tudo”, destacou. Para assumir uma função de gestão, o profissional precisa conhecer o negócio, compreender os valores da empresa e demonstrar competência técnica e comportamental.
Para quem está começando uma trajetória profissional dentro de uma empresa familiar, Priscila deixa uma mensagem simples: é preciso continuar aprendendo, assumir as responsabilidades e confiar no caminho construído ao longo dos anos. Ao lembrar da profissional que era quando assumiu a Ouro Negro, aos 27 anos, ela resume o que diria para aquela Priscila: “Continua. Continua que vai dar certo. Vai dar certo.”

Conheça um pouco mais sobre Priscila Zanette
- Legado ou futuro? Os dois
- Uma característica indispensável para liderar? Humildade
- Uma coisa que um cargo nunca garante? Permanência
- Algo que teu pai te ensinou e você leva até hoje? Os valores
- Uma coisa que você precisou desaprender para crescer? De pessoas
- Uma qualidade que procura em alguém que vai liderar na Ouro Negro? Honestidade e transparência
- Razão ou intuição? Os dois
- Uma decisão difícil que valeu a pena? Desligamento de alguns profissionais
- Algo que dinheiro nenhum compra? Os valores da empresa. Ética, comprometimento, transparência, humildade, honestidade, credibilidade, nada
- Uma mulher que te inspira? Minha mãe
- Uma coisa que ainda quer aprender? Nossa, muitas coisas eu quero aprender ainda
- O que te ajuda a desligar do trabalho? Meu filho
- Uma palavra para definir a Ouro Negro? Tradição, confiança, credibilidade, competência
Confira aqui o episódio completo


