Fora do Ar: da agricultura em Armazém à gestão da Água Mineral Gravatal, Daniel Pereira relembra trajetória marcada por desafios e recomeços
Filho de agricultores, empresário conta a Marc Lopes como os estudos, as experiências profissionais, o empreendedorismo e as relações humanas ajudaram a construir sua carreira
A história profissional de Daniel Pereira começou longe dos escritórios e das grandes empresas. Filho de agricultores, ele cresceu no interior de Armazém, no Sul de Santa Catarina, ao lado dos pais e de três irmãos. Na infância, ajudava nas atividades da propriedade da família, que trabalhava com o cultivo de fumo e a criação de gado.
Foi também nessa época que surgiu uma das lembranças que Daniel carrega como símbolo da importância dada pelos pais à educação. Mesmo sem ter tido a oportunidade de avançar nos estudos, o pai vendeu um gado para comprar uma coleção de livros para os filhos.
“Eu lembro que o meu pai vendeu um gado e comprou uma coleção de livros porque na época não tinha internet nem Google. Tudo era à base de livros”, relembrou Daniel durante o episódio do podcast Fora do Ar, apresentado por Marc Lopes.
A coleção tinha enciclopédias, dicionários e obras de autores como Machado de Assis e José de Alencar. Os livros passaram pelos irmãos e, posteriormente, também foram utilizados pelos sobrinhos.
Para Daniel, a educação foi um dos principais incentivos recebidos dentro de casa. Ele deixou a agricultura aos 16 anos, quando conseguiu uma oportunidade de estágio no BESC, antigo Banco do Estado de Santa Catarina. Enquanto trabalhava, continuava os estudos e começou a guardar dinheiro para fazer uma faculdade.
Em 1997, depois de passar no vestibular, iniciou o curso de Administração na Unisul. A escolha veio, em parte, depois de analisar um catálogo vocacional que apresentava diferentes profissões e possibilidades de atuação.
“Eu comecei a analisar aquele catálogo. E dizia a profissão de Direito, o que faz o advogado, quais as possibilidades, quais as especializações. Eu comecei a ler. E daqui a pouco eu lia de Administração também”, contou.
A carreira, porém, não seguiu uma linha reta. No início da faculdade, Daniel teve uma experiência profissional que não deu certo e voltou para casa frustrado. Pouco depois, distribuiu currículos pela região e acabou sendo contratado pela Moldurarte, onde permaneceu de 1997 a 2003.
A empresa se tornou uma espécie de escola prática para o jovem estudante. Além da experiência profissional, Daniel teve contato com gestores que também eram professores da faculdade. Segundo ele, a convivência ajudou a aproximar o conhecimento acadêmico da realidade das empresas.
“Eu aprendi isso a duras penas com o tempo que tu vai ganhando idade, vai sofrendo alguns intempéries, algumas coisas que dão certo, dão errado e levando também algumas broncas na vida que são importantes para te amadurecer. E chegar num tempo que, assim, poxa, realmente a experiência faz a diferença”, afirmou.
Empreendedorismo e um recomeço
Depois da passagem pela Moldurarte, Daniel deixou a empresa e se mudou para Rio Fortuna com a esposa, Eliane. Os dois passaram a trabalhar em uma empresa de quadros, onde ele cuidava da administração e ela atuava na produção.
O período terminou após um desentendimento com o proprietário. A saída aconteceu justamente quando o casal tinha um filho pequeno, Lucas, então com cerca de seis meses.
A alternativa encontrada foi abrir uma sorveteria e lanchonete em Rio Fortuna. A Sorveteria começou a funcionar em 2005 e trouxe ao casal uma nova experiência empresarial.
O negócio, entretanto, enfrentou dificuldades. O tamanho do mercado local, os custos de aluguel, a necessidade de pagar uma babá e períodos de chuva que afetavam o movimento fizeram Daniel e Eliane perceberem que seria difícil ampliar a empresa.
“Eu disse para a Eliane assim: nós não vamos crescer mais aqui, não tem espaço, não tem população. (…) A minha opção é outra. Eu me sinto mais feliz, realizado trabalhando com aquilo que eu me formei”, contou.
A experiência terminou, mas abriu espaço para uma nova etapa. Daniel voltou para a área de Administração e começou a atuar com consultoria empresarial.
O primeiro cliente surgiu por indicação de um amigo da faculdade. A partir daí, novos trabalhos apareceram e, em determinado momento, a renda obtida com as consultorias chegou a ser três vezes maior do que a que recebia anteriormente.
“Quando eu comecei a dar consultoria, quando eu fechei cinco clientes a semana toda, eu estava praticamente recebendo o triplo do que eu ganhava lá”, relembrou.
Durante cerca de três anos, Daniel atuou como consultor e passou por diferentes empresas. Em uma delas, assumiu posteriormente a gestão comercial e permaneceu por aproximadamente quatro anos.
Uma negociação com a Arezzo
Foi nessa fase que surgiu uma das experiências profissionais que Daniel considera marcantes. A empresa em que trabalhava recebeu um contato interessado em comprar um grande volume de sacolas. Inicialmente, o representante não revelou qual era a marca.
Após algumas conversas, veio a informação: tratava-se da Arezzo, que buscava um novo fornecedor.
O negócio quase foi perdido antes mesmo de começar. Depois de uma primeira negociação, o fornecedor antigo conseguiu permanecer com a marca. Meses mais tarde, porém, a empresa recebeu um novo contato.
Dessa vez, havia uma exigência: apresentar pessoalmente uma amostra ao proprietário da marca, em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul.
Daniel e a equipe tiveram poucas horas para preparar o produto. A sacola recebeu os acabamentos necessários em Criciúma e seguiu viagem para Novo Hamburgo. A equipe chegou no horário limite para apresentar a amostra.
“Chegando lá, tudo muito rápido, entramos no escritório onde ele estava. Ele pegou a sacola que nós tínhamos fabricado, olhou, examinou, segurou na alça e começou a bater nela de tudo quanto é jeito”, relatou.
A resistência do produto foi aprovada. Segundo Daniel, o proprietário da Arezzo comparou a amostra com a sacola utilizada pelo fornecedor anterior e explicou que a qualidade era fundamental para preservar a imagem da marca.
“Ele me explicou o porquê. A nossa marca é uma marca famosa, reconhecida. As mulheres gostam de comprar nas lojas, elas vão lá, colocam o produto dentro e querem sair no shopping com a nossa sacola. (…) Como é que vai ficar a nossa marca, a representatividade da nossa marca, o conceito da nossa marca?”, contou.
A negociação trouxe novos investimentos para a empresa e também ajudou Daniel a ampliar a estrutura comercial. O trabalho com a marca durou quase dois anos, mas depois houve uma redução do volume contratado.
O caminho até a Água Mineral Gravatal
A chegada à Água Mineral Gravatal aconteceu em 2012, depois de outra mudança profissional.
Daniel já conhecia a empresa e tinha tido contato anteriormente com um de seus proprietários, além de conhecer o trabalho desenvolvido por um consultor que prestava assessoria à empresa.
Certo dia, recebeu um e-mail informando que a Água Mineral Gravatal procurava um administrador para assumir um trabalho de gestão. Ele respondeu à mensagem e acabou sendo convidado para uma conversa.
A decisão não foi imediata. Daniel avaliou o desafio e chegou a conversar com um amigo antes de aceitar a proposta. A mudança significava deixar uma empresa na qual já estava estabelecido para assumir uma função de maior responsabilidade.
“Eu pensei mil vezes. Vou, não vou. (…) Talvez tivesse chegado o momento de eu mudar realmente”, relatou.
Daniel aceitou o desafio e assumiu a gestão da Água Mineral Gravatal. Segundo ele, já são cerca de 13 anos à frente da empresa, período em que houve avanços, mas também novos desafios.
“Melhoramos, mas ainda há muito que melhorar e construir, muitas coisas para fazer ainda”, afirmou.
Família, fé e relações humanas
Ao longo da conversa com Marc Lopes, Daniel também destacou a influência da família na construção de sua trajetória. Para ele, valores como honestidade, respeito e responsabilidade foram aprendidos principalmente pelo exemplo dos pais.
“As pessoas aprendem muito mais pelo exemplo do que pelas palavras”, afirmou.
A relação com a esposa, Eliane, também aparece como parte importante dos momentos de mudança. Os dois enfrentaram juntos as dificuldades da sorveteria, as mudanças de cidade e as decisões profissionais que marcaram a trajetória do casal.
Ao falar sobre o que diria ao jovem que foi no início da carreira, Daniel não aponta apenas conhecimento técnico ou formação acadêmica. Para ele, aprender a lidar com pessoas é uma habilidade que pode fazer diferença na vida profissional.
“Se eu tivesse aprendido mais cedo a lidar com os sentimentos, a lidar com a inteligência emocional, eu antes ainda estaria pronto para novos desafios”, disse.
Daniel também defende que os profissionais busquem desenvolver a capacidade de ouvir, respeitar opiniões diferentes e se colocar no lugar do outro.
“É muito importante. O jovem de hoje precisa entender isso e buscar esse conhecimento o quanto antes no caminho profissional dele. (…) Sempre buscar esse conhecimento em relações humanas, em lidar com pessoas, respeitar as pessoas, a opinião dos outros, se colocar no lugar das outras pessoas para que possa adquirir mais sucesso e mais oportunidades”, afirmou.
A trajetória de Daniel Pereira mostra que a carreira nem sempre segue um caminho planejado. Da agricultura em Armazém aos primeiros empregos, passando pela experiência na Moldurarte, pelo empreendedorismo, pela consultoria e pela negociação com grandes marcas, cada etapa trouxe aprendizados que contribuíram para os desafios seguintes. Hoje, à frente da gestão da Água Mineral Gravatal, ele afirma que continua acreditando na importância do conhecimento, dos valores e, principalmente, das relações humanas.
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