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Da infância nos canteiros à reinvenção: Adriana Maria conta sua trajetória no Fora do Ar

Sócia-fundadora da Lumma Construtora relembra os desafios de uma mulher em um setor predominantemente masculino, os recomeços da família, a expansão dos negócios e a criação do Casarão Floripa Eventos

Por Ligado no Sul21/09/2026 13h20
Foto/Redação

A construção civil faz parte da história de Adriana Maria desde a infância. Filha de empresários do setor, ela cresceu acompanhando o trabalho do pai e, ainda adolescente, começou a ajudar na empresa. Mais tarde, ao lado do marido, Gilmar, transformou essa experiência em uma trajetória empresarial, a  Lumma Construtora.

No podcast Fora do Ar, Adriana relembrou diferentes fases dessa caminhada. Falou sobre a infância nos canteiros de obras, o casamento ainda muito jovem, o preconceito que enfrentou por ser mulher, a participação dos filhos na empresa, os momentos em que a família precisou recomeçar e a expansão dos negócios para outros mercados.

Também contou como os problemas de saúde fizeram com que precisasse mudar a forma de trabalhar e deram origem a um novo empreendimento, o Casarão Floripa Eventos.

A relação de Adriana com a construção começou muito antes da criação da Lumma. Quando a família se mudou para Florianópolis, ela acompanhava o pai nas obras e, muitas vezes, ficava com a mãe e os irmãos esperando enquanto ele trabalhava.

“A minha realidade sempre foi a construção civil. Quando o pai foi para Florianópolis, a mãe foi sozinha com três filhos. Naquela época, ele trabalhava durante o dia e também à noite. Muitas vezes, o pai nos levava para a obra à noite, e nós três ficávamos no Fusca com a mãe, esperando ele terminar o trabalho. Durante o dia, a gente também acabava indo para as obras. Então aquilo ficou natural, fez parte da minha história”, relembrou.

Aos 12 anos, ela começou a ajudar o pai no escritório aos sábados, atendendo o telefone e recebendo as pessoas que chegavam. A experiência foi se acumulando até que a construção civil se tornou parte natural de sua vida profissional.

“Quando eu fui crescendo, eu tinha 12, 13 anos. O pai me levava porque trabalhava no sábado e me levava para ser secretária dele, para receber as pessoas que iam no escritório e atender o telefone. E daí eu fui continuando na construção. Então a gente estava sempre envolvido na construção”, contou.

O marido Gilmar também vinha de uma família ligada ao setor. Os dois começaram a trabalhar juntos e, segundo Adriana, a formação da Lumma foi resultado de uma combinação que acabou acontecendo naturalmente.

“Não foi uma coisa planejada, foi acontecendo naturalmente. O meu pai trabalhava na parte comercial e eu também. Já o pai do Gilmar cuidava da parte operacional e das obras, e o Gilmar seguia esse mesmo caminho. Então, quando a gente percebeu, estava todo mundo dentro da construção civil, cada um fazendo aquilo que já sabia fazer. Acabou dando certo, as coisas se encaixaram e a empresa foi crescendo.”

O espaço das mulheres nos canteiros

A entrada de Adriana nos canteiros de obras não aconteceu sem resistência. Em uma época em que os terrenos de obra eram vistos como espaços masculinos, ela conta que inicialmente precisava limitar sua presença às atividades burocráticas.

“Naquela época era uma época bem machista. Eu enfrentei bastante preconceito, porque a mulher não entrava nunca no terreno de obra, porque era um espaço totalmente masculino. Eu não entrava. Comecei a fazer o pagamento, comecei a fazer a parte burocrática. Daí não tinha como eu não entrar na obra, mas era assim: entra rápido e sai rápido.”

A mudança foi gradual. Com a chegada de engenheiras e arquitetas ao mercado, Adriana também precisou enfrentar a resistência de profissionais que não aceitavam receber ordens de mulheres.

“Depois começaram a se formar engenheiras e arquitetas, e nós contratamos algumas delas. Só que os empregados, principalmente os mestres de obra, não aceitavam receber ordens das engenheiras. Então eu disse: ‘Foram elas que eu coloquei aqui e, para tirar, a conversa vai ter que ser comigo’. A partir daí, eles tiveram que entender que elas estavam ali para exercer a função delas e que precisavam ser respeitadas.”

Hoje, segundo Adriana, a realidade é diferente dentro da empresa.

“Hoje temos 23 mulheres na construção, engenheiras e várias arquitetas que estão lá atuando. Hoje a mulherada tomou conta meio do mercado, né? E a construção civil não ficou diferente.”

Para ela, essa mudança também está ligada à cultura construída dentro da empresa. Adriana afirma que a Lumma busca trabalhar com uma lógica de colaboração entre os profissionais.

“A nossa empresa, a cultura é colaborativa, não é competitiva. Todos são importantes no processo, desde a pessoa que limpa a obra até um engenheiro. Nada sai sem a cooperação de todos. Então, para mim, é superimportante. Eu sou apaixonada realmente pelos nossos empregados, porque tu não chega sozinho em lugar nenhum.”

Ela também destaca que os resultados da empresa estão ligados ao trabalho de muitas pessoas.

“Não é apenas uma família, são os donos, não. São muitas famílias. Tu não consegue fazer nada sozinho. Então são muitas famílias envolvidas.”

A necessidade de recomeçar

A trajetória empresarial da família também teve períodos de dificuldade. Quando a empresa do pai deixou de funcionar, Adriana e os familiares precisaram mudar completamente a realidade que conheciam.

“Foi muito difícil porque a gente tinha um padrão de vida alto e, de repente, o pai parou a empresa. Daí nós ficamos sem fazer nada e tivemos que nos reinventar. Eu e o Gilmar nos reinventamos na construção civil. Foi bem difícil, foi muito difícil.”

O casal começou trabalhando com mão de obra e, posteriormente, criou a Lumma. A empresa completa 20 anos em 2026.

“A gente trabalhou um tempo com mão de obra, depois a gente lançou a Lumma e daí foi tocando e nunca mais parou. Vinte anos nós estamos fazendo esse ano.”

A partir daí, os negócios cresceram e ganharam novas frentes. Adriana conta que, em 2017, decidiu buscar clientes fora do Brasil.

“Em 2017 eu inventei de fazer uma internacional para vender para os Estados Unidos e para a Europa. Daí eu comecei a visitar os Estados Unidos e a Europa para prospectar clientes e hoje a gente vende para 18 países e 14 estados.”

A estratégia também foi baseada na aproximação direta com os clientes.

“O Lumma Conexões funciona assim: nós vamos até onde o nosso cliente está. Temos clientes no Rio Grande do Sul, no Oeste de Santa Catarina e também fora do Brasil. Eu mesma estive nos Estados Unidos há pouco tempo para prospectar novos clientes. A gente vai até onde eles estão, cria essa aproximação e mantém esse relacionamento. E os próprios clientes também acabam indicando a empresa. Hoje, 85% das nossas vendas vêm de indicações.”

Os filhos e a sucessão

A construção civil também chegou à geração seguinte. Das três filhas de Adriana e Gilmar, Luísa permaneceu próxima da empresa e se formou em arquitetura. O marido dela, Leonardo, é engenheiro e também atua no negócio.

Marina escolheu morar em Portugal e Marcela segue carreira na medicina. Para Adriana, a decisão dos filhos de seguirem caminhos diferentes faz parte da própria dinâmica de uma família empresária.

Ela conta que, mais recentemente, a participação de Luísa e do marido na sociedade também levou a família a discutir a sucessão.

“A Luísa começou a reclamar: ‘Ô mãe, eu vou trabalhar e o Léo vai trabalhar e depois, na hora de dividir a herança, todo mundo ganha igual’. Daí a gente pegou e já deu uma sociedade para eles, deu a parte deles na empresa. Mas todas elas concordaram. Foi tudo em concordância, até porque lá em casa não tem essa de quem manda e pronto.”

Adriana acredita que a experiência acumulada pela família pode servir como ponto de partida para as próximas gerações.

“Não importa o serviço do pai, mas o filho pode aprimorar com uma nova visão, depois o neto aprimora com outra visão. Então eu acredito muito nisso. Se tu segue a profissão do pai, tu aprimora. Tu não começa do zero. Tu começas num ponto que tu estás à frente de todo mundo.”

Quando foi preciso desacelerar

Depois de anos trabalhando em ritmo intenso, Adriana enfrentou problemas de saúde e precisou se afastar parcialmente da Lumma. A mudança foi difícil justamente porque, segundo ela, o trabalho sempre ocupou um espaço central em sua vida.

“Como eu fiquei com burnout, eu fiquei bem doente. O meu gatilho era a empresa porque eu trabalho a vida inteira. Eu fiquei extremamente doente e fui obrigada a mudar de vida. Eu era extremamente ligada no meu serviço. Então, quando tu não gosta do que tu faz, talvez seja mais fácil. Mas como eu gosto, eu sou uma pessoa que gosta de fazer tudo. O que vier na minha mão eu faço, eu gosto.”

Ela conta que passou por diferentes problemas de saúde e que o processo a obrigou a reconhecer os próprios limites.

“Tu era obrigada a parar porque não tinha mais condições de fazer nada. Então, tu passava a vida doente, sempre aparecia alguma coisa. Mais recentemente, eu tive três microAVCs. Isso faz com que tu fique sempre naquela expectativa, preocupada com a possibilidade de ter algum outro problema. Acabei ficando mais reclusa, até por orientação de me cuidar mais e evitar algumas situações. É uma coisa bem difícil, bem difícil mesmo.”

A experiência fez Adriana rever a relação com o trabalho e encontrar uma atividade que pudesse manter sua ligação com o empreendedorismo em um ritmo diferente.

“Tu tem que mudar de vida. Então eu fui obrigada a mudar de vida. Eu não tinha como tocar minha vida como era antes.”

Do empreendimento ao Casarão Floripa

Foi nesse período que nasceu o Casarão Floripa Eventos. O imóvel, localizado à beira-mar, estava parado havia anos e chamou a atenção de Adriana.

“Esse empreendimento estava há seis anos parado. Essa casa é uma casa enorme, é um terreno de 2 mil metros quadrados de frente para a praia. Ele é muito lindo, tem uma casa toda de tijolinho à vista, cheia de arcos. Daí eu passei ali e disse: ‘Cara, isso aqui eu vou conseguir fazer a minha grana parada’.”

Adriana decidiu reformar o imóvel e criou um espaço voltado principalmente para casamentos e celebrações.

“Eu peguei, fiz todo um projeto inspirado na Itália. Fiz o projeto de jardim, fiz o projeto interno de decoração e daí nós transformamos numa casa. Então hoje eu trabalho de novo, trabalho com muita gente do exterior. Veio muita gente do exterior casar ali. Então foi um sucesso.”

O projeto acabou crescendo mais do que ela esperava. A agenda do espaço já tem eventos programados para os próximos anos.

“Trabalhamos bastante em 2025, trabalhamos bastante em 2026 e 2027 está lotado. Então é muito interessante. Já tem agenda 2027 e já começou a procurar 2028.”

Para Adriana, a nova atividade trouxe uma relação diferente com o trabalho.

“Tu trabalha com amor, com emoção, com o sonho das pessoas. Então é muito legal. Eu gosto de tudo que é beleza. A beleza das flores, a beleza da decoração, a beleza dos bolos. Então tudo é bonito, tudo é beleza. Eu gosto muito de trabalhar com esse lado.”

“Eu posso me reinventar, mas não desistir”

Mesmo depois de mudar parte da rotina, Adriana afirma que não pretende abandonar o espírito empreendedor. Ao ser questionada sobre a principal lição que trouxe do pai, respondeu de forma direta.

“Nunca desistir. Eu posso me reinventar, mas não desistir.”

A frase resume uma trajetória que começou dentro da empresa do pai, passou pela construção da Lumma, pela expansão internacional e chegou a um novo negócio depois de uma mudança forçada pela saúde.

Ao falar sobre o que diria para a adolescente que foi um dia, Adriana também afirma que não mudaria o caminho que percorreu.

“Eu acho que para seguir a vida que eu segui, porque eu fui muito feliz em todas as coisas que eu segui. Eu era muito convidada para ser modelo, era convidada para um monte de coisa, mas eu quis ficar dentro daquilo que eu sabia.”

Para ela, aproveitar os conhecimentos transmitidos pela família pode ajudar quem está começando.

“Se tu tens uma mãe cozinheira, aprende com ela. Tu já vai sair lá na frente. Se tu tens uma mãe costureira, também aprende, porque tu vai lá para frente. Então eu sempre pensei desse jeito, porque o caminho que a tua mãe levou te joga mais para frente. Tu aprende mais, tu vai embora mais.”

Ao longo da conversa, Adriana também falou sobre o casamento com Gilmar, iniciado ainda na adolescência e que já soma mais de quatro décadas. Para ela, a relação também é construída diariamente.

“Todos os dias  tu constrói um casamento. Tu decide, todos os dias, continuar ao lado daquela pessoa. É uma decisão diária. A gente fica muito triste de ver casamentos que começam e, pouco tempo depois, já terminam. Às vezes, não dá nem tempo de criar um filho, de viver as fases da vida juntos, de construir uma história. Eu acho que casamento é isso: é uma construção diária.

Entre grandes obras, negócios familiares, desafios profissionais e uma nova fase dedicada aos eventos, Adriana resume a própria caminhada pela capacidade de continuar seguindo, mesmo quando foi necessário mudar de direção.

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