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Beto Colombo fala sobre trabalho, caminhos e a descoberta de uma vida além dos negócios

Fundador da Tintas Anjo contou a Marc Lopes como o excesso de trabalho, as experiências como peregrino e a Filosofia Clínica transformaram sua relação com o tempo e com a própria identidade

Por Ligado no Sul14/09/2026 12h00
Foto/Redação

Por muitos anos, Beto Colombo viveu em ritmo acelerado. Aos 21 anos, começou a construir a trajetória empresarial que o levaria à criação da Tintas Anjo. A empresa cresceu, novos negócios surgiram e os resultados apareceram, mas, junto com eles, veio uma rotina que ocupava praticamente todos os espaços da sua vida.

A história foi contada no podcast Fora do Ar. Empresário, filósofo, escritor, peregrino e profissional da Filosofia Clínica, Beto relembrou momentos importantes da trajetória e falou sobre as mudanças que aconteceram quando percebeu que havia deixado de viver fora do trabalho.

“Eu tenho pouca memória dos 21 aos 34 anos. Eu tenho muita memória do trabalho”, contou.

A relação com os negócios começou cedo. Depois de estudar Teologia e Filosofia e de passar por diferentes trabalhos, Beto atuava como vendedor de tintas automotivas quando percebeu que um produto vindo de São Paulo, a Massa Plástica, estragava com facilidade nas prateleiras. A ideia de produzir o material na região deu início ao que mais tarde se transformaria em uma indústria química.

O crescimento da empresa trouxe novos produtos e mercados, mas também fez com que Beto aumentasse cada vez mais o ritmo. Aos 30 e poucos anos, começou a enfrentar taquicardia, ansiedade e exaustão. Foi então que passou alguns dias em uma clínica no Rio Grande do Sul e teve a oportunidade de olhar para a própria vida de outra maneira.

Ele percebeu que havia deixado de lado atividades que gostava desde a juventude, como escrever, compor músicas, cantar, tocar percussão, jogar futebol, correr e fazer trilhas.

Ao tentar recuperar esses interesses, no entanto, percebeu outro problema: transformava quase tudo em negócio.

Criou uma banda com funcionários, mas as apresentações passaram a ser contratadas. O restaurante que havia começado como lazer também virou negócio. Até atividades que deveriam ser apenas momentos de descanso acabavam relacionadas ao trabalho.

“Eu percebi que eu era viciado em negócio. Eu transformava tudo em negócio”, afirmou.

 

O caminho que mudou a direção

Aos 44 anos, Beto decidiu realizar um sonho que carregava desde os tempos em que estudava Teologia: percorrer o Caminho de Santiago de Compostela. Em 2007, passou 31 dias caminhando cerca de 819 quilômetros.

A experiência começou como um desafio físico. Nos primeiros dias, enfrentou dores nos joelhos, calcanhares e costas, além das bolhas nos pés e do peso da mochila. Aos poucos, percebeu que precisava respeitar o próprio corpo.

Mas as principais mudanças não aconteceram apenas fisicamente. Durante a caminhada, Beto começou a questionar os diferentes papéis que havia acumulado ao longo da vida.

Empresário, professor, músico, escritor, dono de restaurante e tantas outras funções haviam se misturado à maneira como ele se enxergava.

Foi no caminho que chegou a uma frase que passou a representar uma mudança importante em sua vida:

“Eu estou empresário, eu não sou empresário.”

A partir dali, começou a entender que uma profissão poderia fazer parte de sua identidade, mas não deveria definir quem ele era.

A experiência também levou Beto a pensar na sucessão da empresa. Seus dois filhos já trabalhavam na Tintas Anjo e tinham interesse em continuar no negócio. O que para o pai havia se tornado um peso, para os filhos representava uma oportunidade.

“Eu queria sair daquele cálice e eles queriam beber daquele cálice”, contou, ao lembrar da reação dos filhos quando anunciou que pretendia deixar a empresa.

Em vez de encerrar a relação com o negócio, Beto passou a preparar os dois para assumir responsabilidades. O filho mais velho buscou conhecimento no exterior e o mais novo concluiu os estudos antes de assumir uma posição de liderança. Hoje, os dois estão à frente da empresa, enquanto Beto atua no conselho.

A mudança também abriu espaço para uma nova etapa profissional. Depois de estudar Teologia, Filosofia e Administração, ele conheceu a Filosofia Clínica e passou seis anos se dedicando à área. Mais tarde, passou a atender pacientes e encontrou outra forma de trabalhar com pessoas e suas histórias.

Quando percebeu que estava correndo novamente

Anos depois da primeira experiência em Santiago, Beto percebeu que havia voltado a cair no mesmo padrão.

Em 2023, aos 60 anos, sua agenda estava novamente cheia. Participava de processos de sucessão, conselhos e outras empresas, além dos atendimentos em São Paulo e Florianópolis. Uma conversa com a esposa fez com que ele lembrasse de antigos planos de viajar e viver novas experiências.

Foi então que decidiu fazer outro caminho, dessa vez o Caminho Primitivo, na Espanha.

A experiência foi ainda mais intensa. Beto passou dias caminhando sem tomar banho, dormiu ao ar livre, enfrentou chuva e passou por situações que o fizeram abandonar completamente as referências que tinha sobre si mesmo.

Em um dos episódios, depois de dormir perto de uma cachoeira, acordou durante a noite com a presença de um animal próximo. Sem saber exatamente o que estava diante dele, permaneceu no local até o amanhecer.

No dia seguinte, continuou a caminhada debaixo de chuva, com a capa rasgada e coberto de lama. Quando entrou em um estabelecimento, percebeu pela reação de duas pessoas que seu cheiro estava forte. Pediu um café com leite e algumas madeleines e preferiu ficar do lado de fora.

Para Beto, situações como essa fizeram parte de um processo de abandonar novamente os papéis que havia construído.

Depois da experiência, reduziu os atendimentos e decidiu não trabalhar mais com empresas. Mais uma vez, entendeu que precisava diminuir o ritmo.

Ele define os momentos de maior transformação da vida como seus “desertos”. O primeiro veio com a crise de taquicardia e exaustão. O segundo foi o Caminho de Santiago. O terceiro, o Caminho Primitivo.

Caminhar para encontrar o próprio caminho

As experiências também deram origem a reflexões que Beto transformou em um novo livro. A obra trata da relação entre a pressa, a cobrança e o cansaço da sociedade atual.

Durante a conversa com Marc Lopes, ele citou pensadores como Michel Foucault e Byung-Chul Han para falar sobre uma sociedade em que muitas pessoas passaram a ser seus próprios cobradores.

Para Beto, uma das formas de romper esse ciclo é voltar a caminhar e prestar atenção ao que está ao redor.

“Tem um cansaço bom e tem um cansaço ruim. O cansaço bom é aquele que você caminha, chega em casa, toma banho, dorme e no outro dia está bem. O cansaço ruim é o cansaço mental”, explicou.

Ele também defende que a caminhada ajuda a recuperar a atenção para as pessoas. Quando alguém está andando, há mais tempo para observar, conversar e conhecer quem está ao lado, em vez de apenas seguir rapidamente para o próximo compromisso.

Essa relação com o caminho também aparece na forma como Beto fala sobre espiritualidade. Para ele, a experiência de caminhar pode ser religiosa para algumas pessoas, filosófica para outras ou simplesmente uma oportunidade de reflexão. O importante é que cada pessoa encontre significado na própria experiência.

Ao longo dos anos, ele já percorreu diferentes caminhos e também levou grupos para experiências de peregrinação. A ideia, segundo Beto, não é apenas chegar a determinado lugar, mas perceber o que acontece durante o percurso.

No fim da entrevista, Marc Lopes perguntou o que Beto diria para o homem mais jovem que começou a construir sua trajetória empresarial.

A resposta foi simples: “Aprender a caminhar antes de correr.”

Para ele, a frase resume uma das principais lições que levou décadas para compreender. Durante muito tempo, correu atrás de resultados, negócios e objetivos. Hoje, entende que o caminho também precisa ser vivido.

“Eu estava fora de casa há muito tempo. Agora eu voltei para casa”, afirmou.

A trajetória de Beto Colombo, contada no Fora do Ar, mostra justamente essa mudança: de alguém que passou anos tentando chegar cada vez mais rápido ao próximo objetivo para alguém que aprendeu a valorizar o percurso e a entender que nem toda porta precisa ser aberta.

Às vezes, antes de decidir para onde ir, é preciso simplesmente aprender a caminhar.

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