O País sangra e o povo dança. Por Ana Dalsasso
É inegável que o Carnaval faz parte da identidade cultural brasileira. Trata-se de uma festa tradicional, reconhecida mundialmente por sua música, criatividade e capacidade de mobilizar multidões. No entanto, o que se vê nos últimos anos é um distanciamento preocupante entre celebração cultural e o que passou a dominar grande parte do espetáculo: a obscenidade elevada ao status de entretenimento.
O Carnaval deixou de ser apenas alegria para se transformar, em muitos casos, em um palco de libertinagem explícita, promiscuidade banalizada e erotização excessiva, muitas vezes transmitidas sem qualquer critério ou limite. Tudo é permitido, tudo é normalizado, tudo é aplaudido. A liberdade, valor essencial em qualquer sociedade democrática, passou a ser confundida com ausência total de limites, respeito e responsabilidade coletiva.
Diante desse cenário, é inevitável fazer uma pergunta incômoda, mas necessária: temos, de fato, motivos para comemorar? O país enfrenta uma profunda crise moral e ética. Aposentados foram roubados, instituições estão fragilizadas, o crime organizado avança de forma alarmante, a corrupção se mostra cada vez mais escancarada e impune. A educação segue em colapso, a segurança pública é desvalorizada, a saúde enfrenta um cenário caótico e milhões de brasileiros continuam desempregados ou sobrevivendo na dependência do assistencialismo. É difícil entender como a população consegue num piscar de olhos, esquecer-se de tudo e mergulhar numa festa desenfreada, como se nada estivesse acontecendo.
Escândalos se sucedem sem consequências reais, a sensação de injustiça se amplia e a população perde a confiança no Estado. O Brasil vive um dos períodos mais críticos de sua história recente, marcado por descrédito, desigualdade e falta de perspectivas. Ainda assim, incentiva-se uma euforia artificial, como se a festa pudesse servir de cortina para esconder problemas estruturais gravíssimos.
Não se trata de demonizar o Carnaval ou negar o direito ao lazer. A crítica está na inversão de prioridades e valores. Uma sociedade que transforma excessos em virtude e ignora suas próprias feridas corre o risco de normalizar o caos. Celebrar, sem refletir, pode ser apenas mais uma forma de anestesia social.
Talvez o maior problema não seja o Carnaval em si, mas o que ele revela: um país que dança enquanto sangra, sorri enquanto desmorona e prefere o barulho da festa ao silêncio necessário da reflexão.
Assim, alheio a tudo, o povo continua feliz, porque na terra do carnaval e do futebol, “ao povo basta pão e circo”, como dizia o Imperador de Roma.
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