Comoção seletiva e a inversão de valores. Por Ana Dalsasso
A morte do cão “Orelha”, vítima de violência praticada por adolescentes inconsequentes, provocou uma onda de comoção nacional. Durante dias, o episódio dominou manchetes, telejornais, debates em redes sociais e discursos inflamados, muitos deles legítimos ao denunciar a crueldade contra animais. No entanto, o excesso de exposição escancarou uma pergunta incômoda: por que determinadas tragédias mobilizam o país enquanto outras, que colocam vidas humanas em risco, passam quase despercebidas?
Não se trata, aqui, de minimizar a gravidade do crime contra o animal. A violência, em qualquer forma, deve ser combatida. A defesa dos animais é uma pauta civilizatória, necessária e urgente. O problema está na desproporção da indignação e na forma como a sociedade e a mídia escolhem seus alvos de revolta.
Enquanto o país se indignava, com razão, pela morte de um cão, vieram à tona notícias alarmantes sobre médicos recém-formados, diplomados, mas reprovados em provas básicas de conhecimento, profissionais que, mesmo assim, seguem aptos a exercer a medicina e a lidar diretamente com vidas humanas. Onde estava a mesma comoção? Onde estavam os editoriais, os debates em horário nobre, a revolta coletiva?
Há pouco tempo, outro episódio chocante ganhou pouca repercussão nacional: enfermeiros envolvidos na morte de pacientes por meio da aplicação de injeções de cloreto de sódio e desinfetante. Pessoas internadas, fragilizadas, confiando no sistema de saúde, perderam a vida de forma brutal e silenciosa. Ainda assim, o caso não gerou mobilização proporcional, tampouco indignação duradoura.
Esse contraste revela uma inversão de valores perigosa. Uma sociedade que se mobiliza intensamente por um animal, mas se acostuma com a precarização da vida humana, corre o risco de perder o senso de prioridade ética. A vida humana, especialmente a dos mais vulneráveis, dos doentes, dos que dependem do Estado, não pode ser tratada como estatística secundária.
O debate se agrava quando observamos o estado do ensino médico no Brasil. Faculdades de medicina proliferam como verdadeiras fábricas de diplomas, muitas delas cobrando mensalidades altíssimas, mas negligenciando a qualidade da formação. O resultado é um mercado inflado de profissionais mal preparados, um risco real à saúde pública e a banalização de uma das profissões mais sensíveis da sociedade.
Defender os animais não é incompatível com defender a vida humana. Pelo contrário. Mas, é preciso tratamento diferenciado, senso de proporção e responsabilidade coletiva. A indignação seletiva não salva vidas, apenas anestesia consciências.
Se queremos, de fato, uma sociedade mais justa, humana e ética, precisamos aprender a olhar para além do que viraliza. Precisamos questionar por que choramos mais por algumas mortes do que por outras. E, sobretudo, precisamos recuperar a coragem de dizer que a vida humana, sofrida, vulnerável e muitas vezes invisível, também merece comoção, revolta e ação concreta.
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