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Mais um gol contra a educação. Por Ana Dalsasso

Por Ana Maria Dalsasso01/09/2026 15h00
Foto/Ilustrativa

A educação brasileira já enfrenta problemas demais para ainda ter de se adaptar ao calendário de uma competição esportiva. A Lei nº 15.421/2026, que trata da realização da Copa do Mundo Feminina da FIFA 2027 no Brasil, determina que as férias escolares do primeiro semestre de 2027, nas redes pública e privada, abranjam todo o período da competição, de 24 de junho a 25 de julho. A mesma lei permite que a União declare feriados nacionais os dias em que houver jogos da Seleção Brasileira.

Como educadora, não posso deixar de questionar: por que, mais uma vez, quando surge um grande evento, é a escola que precisa ceder? Não sou contra o futebol feminino, tampouco contra qualquer modalidade esportiva. O esporte tem seu valor, promove saúde, disciplina, convivência e pode ser uma importante ferramenta de formação. Mas uma coisa é reconhecer sua importância; outra, completamente diferente, é colocar o calendário educacional a serviço de uma competição esportiva.

Nossos estudantes já carregam uma preocupante defasagem de aprendizagem. Temos crianças e adolescentes que avançam pelas etapas escolares sem dominar adequadamente leitura, escrita, interpretação e matemática. Temos professores sobrecarregados e escolas enfrentando inúmeras dificuldades. Nesse cenário, cada dia letivo deveria ser tratado como precioso.

E agora vem a pergunta inevitável: como ficará a reposição das aulas? Como as escolas reorganizarão seus calendários? O que acontecerá com os conteúdos que deixarão de ser trabalhados no período normal? Quem garantirá que essa alteração não produzirá ainda mais prejuízos pedagógicos?

Outro ponto que merece reflexão é a possibilidade de transformar em feriado nacional os dias de jogos da Seleção Brasileira. Nem todos os brasileiros gostam de futebol. Nem todos acompanham campeonatos, torcem por seleções ou consideram um jogo motivo suficiente para interromper atividades econômicas e administrativas. E quem paga a conta?

Empresas terão funcionários afastados, comércio poderá ter redução de funcionamento, serviços precisarão ser reorganizados e haverá impactos econômicos. A lei prevê a possibilidade de feriados, mas não existe feriado sem custo para alguém. Quem arcará com os prejuízos?

É preciso estabelecer prioridades. Um país que ainda luta para melhorar seus índices educacionais deveria colocar a educação no centro das decisões públicas, e não subordiná-la aos interesses de um evento esportivo.  Futebol é entretenimento. Educação é futuro.

Podemos celebrar a Copa, torcer pelas nossas jogadoras e valorizar o esporte feminino sem transformar escolas em peças de um calendário esportivo. O Brasil precisa aprender a distinguir aquilo que é importante daquilo que é essencial.

E, para mim, essencial é garantir que nossos alunos tenham o máximo possível de tempo, qualidade e condições para aprender. Quando a educação perde espaço, quem perde não é apenas a escola. Perde o país inteiro.

 

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal.

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