Relatório do MPSC aponta presença de agrotóxicos na água em 155 municípios catarinenses
Um relatório do Ministério Público de Santa Catarina identificou a presença de resíduos de agrotóxicos na água potável de 155 municípios do Estado. As análises encontraram 42 substâncias diferentes, incluindo produtos com uso e comercialização proibidos no Brasil. A Região Sul apresentou a maior proporção de municípios com registros (76,1%), seguida pela Grande Florianópolis (57,1%), Oeste (53,4%), Vale do Itajaí (44,4%), Norte (42,3%) e Serra Catarinense (33,3%).
Apesar dos números, o órgão ressalta que toda a água analisada foi considerada própria para consumo humano.
Em entrevista ao Jornal da Guarujá, a promotora de Justiça e coordenadora do Centro de Apoio Operacional do Consumidor, Aline Restel Trennepohl, explicou como o levantamento foi realizado.

Foto/Divulgação
“O Ministério Público fez, entre 2018 e 2023, cerca de mil testagens nas águas que são postas a consumo da população, em todos os 295 municípios catarinenses. E os achados demonstraram que a metade aproximadamente dos municípios contém algum tipo de resíduo de agrotóxicos nas águas.”
Ela reforçou que, mesmo com a detecção das substâncias, a água segue dentro dos padrões legais.
“É importante que se diga: toda água que foi testada foi considerada própria pro consumo. O que significa que ela atende aos padrões de potabilidade estipulados pelo Ministério da Saúde. A água é segura.”
Exposição crônica preocupa
A promotora pondera, no entanto, que a presença dos resíduos acende um sinal de alerta quanto à exposição prolongada.
“A gente sabe que a exposição crônica a essas substâncias pode levar a agravos de saúde. Por isso o Ministério Público entende que é necessário que a gente revisite as nossas políticas de aplicação, de uso, faça uma fiscalização mais forte no campo, pra ver qual é a qualidade das substâncias que está sendo aplicada, em qual quantidade, de que forma esses agrotóxicos estão sendo usados, pra gente evitar que esses resíduos cheguem até a água e também evitar o uso exagerado dessas substâncias.”
Segundo Aline, a maioria dos 155 municípios apresentou apenas um ou dois tipos de resíduos. Porém, alguns casos chamaram atenção.
“Alguns municípios se destacaram pela multiplicidade. Timbó apresentou 17 ingredientes ativos na água. Imbuia, que fica do ladinho de Ituporanga, apresentou 23. Esses números foram extensivamente maiores do que os demais encontrados nos outros municípios testados. Então isso mostra que naquela região existe um problema mais acentuado com relação ao agrotóxico.”
Ela afirma que essas regiões devem receber atenção especial nas próximas etapas.
“É nessas regiões que a gente pretende focar a nossa atividade de fiscalização e estruturação da cadeia produtiva.”
Além da fiscalização, o Ministério Público pretende atuar na orientação dos produtores rurais.
“A nossa ideia é criar grupos de trabalho intersetoriais. Nós já convidamos outros órgãos da saúde, da agricultura. O Ministério Público vai entrar como parceiro disso, o Ministério da Saúde também. Já tem um programa que é desenvolvido, que é um programa de vigilância de populações expostas a agrotóxicos, e ele já tem um know-how sobre como fazer essa abordagem multidisciplinar.”
Segundo ela, o objetivo não é punir indiscriminadamente.
“A nossa ideia não é fazer uma caça às bruxas. É atuar com firmeza na fiscalização quando isso se revelar necessário, mas a ideia é principalmente convencer e sensibilizar o agricultor para aderir às normas sanitárias, explicando e demonstrando para ele a relevância dessas providências. A educação é primordialmente a intenção do Ministério Público para regularizar o setor.”
Substâncias proibidas
O relatório também aponta registro de agrotóxicos proibidos em municípios como Balneário Arroio do Silva, no Sul do Estado.
“Confirmo”, disse a promotora. “Com relação a esses agrotóxicos proibidos, algumas substâncias são o que os estudiosos consideram perenes. Então é possível que essas substâncias tenham sido aplicadas em um momento em que o uso era permitido e que ainda estejam sendo exibidas nos nossos mananciais freáticos. Mas também existe a possibilidade de estar ingressando ainda no território nacional esse produto proibido.”
Ela explica que a próxima etapa será identificar a origem da contaminação.
“A nossa apuração daqui pra frente vai focar em identificar qual é a origem, o porquê que ela apareceu na água e principalmente focar na fonte de contaminação. A aparição dessas substâncias na água é um sintoma do problema, ela não é a causa em si.”
Água distribuída é mais segura
“É preferível que se ingira essa água que vem distribuída pelas redes de distribuição, que é tratada, é mais segura, protege o consumidor contra bactérias, vírus e parasitas e outras substâncias químicas, ao contrário das águas de bicas e de fontes, que podem trazer problemas de saúde ainda mais graves e imediatos.”
A promotora destacou que a água distribuída pelas redes públicas continua sendo a opção mais segura.
“A água é segura, ela atende aos parâmetros de potabilidade. A vigilância sanitária estadual faz acompanhamento periódico da qualidade da água, as concessionárias também fazem testagens periódicas todos os meses, todos os dias. Essa água é segura, mas a aparição dessas substâncias nos mostra que a gente tem que trabalhar para reduzir o uso de agrotóxico ao mínimo necessário, porque ao longo prazo isso pode gerar problema.”
Questionada sobre a possibilidade de os dados refletirem um período específico de maior aplicação de defensivos, Aline explicou que as coletas ocorreram ao longo de cinco anos.
“As coletas foram feitas em um período de cinco anos, entre 2018 e 2023. Não foram todas no mesmo dia. Foram vários momentos, em vários locais diferentes, 295 municípios. Então o resultado nos dá um retrato razoavelmente fiel da situação que a gente tem hoje no território de Santa Catarina.”
Confira entrevista completa
