Delegação brasileira busca na Ásia tecnologias para tornar cadeia do carvão mais sustentável
Em entrevista, Fernando Zancan apresenta resultados de missão na Ásia focada em tecnologias de descarbonização do carvão
A busca por novas tecnologias voltadas ao desenvolvimento sustentável da cadeia produtiva do carvão levou uma delegação brasileira à Ásia, com agendas no Japão e na China. O grupo foi composto pelo presidente da Associação Brasileira do Carbono Sustentável (ABCS), Fernando Luiz Zancan, pelo engenheiro químico e pesquisador, Dr. Thiago Aquino, e pelo engenheiro Ariel Brambilla, da Diamante Energia.
Durante a missão, os representantes realizaram visitas técnicas a instituições e empresas estratégicas, com foco em soluções para redução de emissões e avanço de projetos ligados à captura e uso de dióxido de carbono (CO₂).
Em entrevista ao Jornal da Guarujá, Zancan destacou que a agenda teve início no Japão, onde o grupo participou de uma reunião do conselho da Agência Internacional de Energia, além de visitas técnicas a uma planta termoelétrica de grande porte, localizada na baía de Tóquio.
“Para se ter uma ideia, é uma planta do tamanho de toda a capacidade de carvão nacional. Ela tem cerca de 1.300 megawatts e entrou em operação em dezembro de 2023, com tecnologias de alta eficiência e baixíssimas emissões”, explicou.
Segundo ele, a estrutura chama atenção por estar instalada em uma região densamente povoada, o que demonstra a viabilidade de operação de usinas com menor impacto ambiental. “Isso mostra que é possível operar com usinas térmicas dentro de grandes cidades, com controle de emissões”, afirmou.
Na sequência, a comitiva seguiu para a China, onde o foco principal foi o estudo de tecnologias em desenvolvimento para a produção de zeólitas e, principalmente, para captura de carbono. A delegação visitou universidades, centros de pesquisa e empresas de engenharia, além do Instituto Nacional de Energia Limpa e de Baixo Carbono (NICE), em Pequim — referência internacional no desenvolvimento de tecnologias para redução de emissões.
De acordo com Zancan, uma das preocupações da missão foi entender como escalar processos já testados em laboratório. “Estamos fazendo testes em laboratório piloto e a ideia era ver como sair do piloto para o industrial, entender como funciona o escalonamento dessas tecnologias”, relatou.
Outro destaque foi a observação do modelo energético chinês, que combina fontes renováveis e térmicas. “Você vê várias usinas térmicas junto com fazendas solares. O chinês sabe que o sol não gera energia à noite, então ele mantém a térmica como suporte”, pontuou.
Entre as tecnologias analisadas, a captura de CO₂ foi apontada como uma das mais estratégicas para o futuro do setor. Zancan explicou o funcionamento de forma simplificada: “Quando você vê o gás saindo de uma usina, ali tem cerca de 12% de CO₂. A captura consiste em separar esse CO₂ dos outros gases para que ele não seja liberado na atmosfera”.
Ele destaca que já existem diferentes métodos em desenvolvimento, incluindo processos químicos e físicos, sendo este último baseado na chamada adsorção. “É um material sólido que tem afinidade com o CO₂ e consegue capturá-lo do fluxo de gás”, explicou.
A delegação também visitou uma planta de demonstração dessa tecnologia, considerada única no mundo. “Os chineses acreditam que essa pode ser a tecnologia mais barata de captura de carbono. Eles estão em fase de demonstração e pretendem escalar para nível industrial nos próximos anos”, afirmou.
Segundo Zancan, a China lidera atualmente essa corrida tecnológica, com mais de 120 projetos em andamento. “Eles já têm plantas capturando até um milhão e meio de toneladas de CO₂ por ano e querem chegar a três ou quatro milhões de toneladas, que é o tamanho das usinas deles”, disse.
Apesar do avanço internacional, o presidente da ABCS avalia que a implementação em larga escala ainda deve levar alguns anos. “Os americanos falam em 2030, mas acreditamos que pode demorar um pouco mais. Vai depender da velocidade dos chineses, que são muito rápidos”, ponderou.
A expectativa é que, entre 2030 e 2035, essas tecnologias estejam mais consolidadas e possam ser aplicadas em outros países, incluindo o Brasil. “Nós temos um horizonte até 2050, quando o país precisa ser carbono neutro. Até lá, teremos que desenvolver projetos com captura de CO₂ para manter a geração de energia com menor impacto ambiental”, concluiu.