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Bets agravam endividamento das famílias brasileiras

Instituto Brasileiro de Jogo Responsável diz que avaliação é alarmista

Por Ligado no Sul29/04/2026 10h00
Foto/© Joédson Alves/Agência Brasil

De janeiro de 2023 a março de 2026, a inadimplência do consumidor causada pelas bets retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista. O montante equivale ao volume de vendas nos períodos de Natal de 2024 e 2025.

O crescimento do gasto dos brasileiros com as plataformas eletrônicas, nesse período, foi superior a R$ 30 bilhões por mês. O dito “entretenimento” comprometeu a disponibilidade de renda para manter o pagamento em dia das dívidas e pode ter levado 270 mil famílias à situação de “inadimplência severa” – incapacidade de pagar, marcada por atrasos de 90 dias ou mais.

As estimativas são da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Para a entidade empresarial, “as bets não representam apenas entretenimento; configuram-se como um risco sistêmico para a saúde financeira das famílias, drenando recursos que seriam destinados ao comércio varejista e ao consumo produtivo.”

A confederação avalia que a inadimplência decorrente de gastos com as bets tem impacto sobre o consumo e nas vendas do comércio varejista. De acordo com o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, “a tendência” é que, em situação de aperto financeiro das famílias, gastos não essenciais e até essenciais sejam “sacrificados.”

Sem celular novo

“Podem deixar de trocar de celular ou podem deixar de comprar uma peça de vestuário por causa do agravamento da sua dívida”, exemplifica Bentes, que apresentou, nesta terça-feira (28), em Brasília, análise econométrica (estatística e matemática) em dados apurados pela própria CNC e colhidos do Banco Central.

Conforme a avaliação da confederação, os impactos das bets sobre o endividamento – que interfere na capacidade de consumo – são variáveis conforme o grupo demográfico. “Homens, famílias de baixa renda [até 5 salários mínimos], pessoas mais velhas (35+ anos) e aquelas com maior escolaridade (2º grau+) apresentam maior vulnerabilidade aos efeitos das apostas.”

Os gastos com as apostas em plataformas eletrônicas podem até afligir famílias com renda superior que, segundo a CNC, “desviam recursos para as bets e deixam de honrar compromissos”, o que acarreta atrasos e também inadimplência.

“As bets afetam principalmente as famílias mais vulneráveis, aumentando seu endividamento global, enquanto, para os mais ricos, funcionam como substituto de outras formas de endividamento, embora também gerem inadimplência”, descreve apresentação da entidade.

Limites ao mercado

O presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, defende a implementação de políticas públicas regulatórias para as plataformas e de proteção aos consumidores.

Em nota à imprensa, ele afirmou que as apostas online estão comprometendo a renda das famílias brasileiras. “O impacto já deixou de ser pontual e se tornou macroeconômico. Precisamos discutir os limites desse mercado, especialmente no que diz respeito à publicidade e à proteção das famílias brasileiras.”

De acordo com a CNC, oito em cada dez famílias (80,4%) estão endividadas no Brasil. O indicador é próximo aos 78% verificados no final de 2022. Entre 2019 e aquele ano, a proporção de famílias endividadas cresceu quase 20 pontos percentuais.

Notificação

O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que representa as plataformas de aposta eletrônica que operam legalmente no Brasil, enviou ontem (27) notificação formal à CNC cobrando “transparência metodológica” e “acesso integral” às bases de dados que a entidade usa para avaliar o impacto das bets no endividamento das famílias.

Para o IBJR, outras edições do estudo partiram de “premissa completamente desalinhada com os dados oficiais.” Conforme o instituto, “as conclusões divulgadas pela CNC são alarmistas e contrariam frontalmente as métricas oficiais.”

A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) também disse que os números apresentados pela CNC “não condizem com os dados oficiais do governo e do setor.”

Segundo a associação, a CNC desconsidera “a natureza multifatorial do endividamento dos brasileiros.”

 

*Via Agência Brasil

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