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Quando a ideologia se sobrepõe á ética. Por Ana Dalsasso

Por Ana Maria Dalsasso27/10/2026 15h00
Imagem gerada por IA

Em um pleito eleitoral, cada cidadão tem o direito de escolher livremente seus representantes.

O voto é individual, secreto e representa uma das expressões mais importantes da democracia. Entretanto, seus efeitos ultrapassam os limites da consciência de quem vota: alcançam famílias, comunidades e toda a sociedade. É justamente por isso que a escolha eleitoral exige reflexão, responsabilidade e compromisso com o interesse público.

A ideologia faz parte da política. Diferentes correntes de pensamento são legítimas em uma democracia pluralista e ajudam a construir o debate sobre os rumos de um país. O problema surge quando a identificação ideológica se transforma em fidelidade incondicional, capaz de impedir o reconhecimento de erros, relativizar condutas questionáveis e silenciar a consciência crítica. Mas, quando a defesa de uma ideologia passa a justificar qualquer atitude, que espaço resta para a moral e a ética?

Essa é uma pergunta que merece ser feita independentemente do partido, da corrente política ou do candidato envolvido. Princípios éticos não deveriam mudar conforme a posição política de quem pratica determinada conduta. O que se considera inaceitável no adversário não pode se tornar aceitável apenas porque foi praticado por alguém do próprio grupo.  A coerência moral exige justamente essa imparcialidade.

O risco de colocar a ideologia acima da ética está na criação de dois pesos e duas medidas. Passa-se a condenar os erros de uns e a minimizar os de outros; a exigir honestidade dos adversários e a encontrar justificativas para os aliados. Nesse ambiente, o debate deixa de ser uma busca por soluções e se transforma, muitas vezes, em uma disputa de lealdades.  E a sociedade, o que ganha com isso?

Quando a política se distancia dos princípios de responsabilidade, transparência e respeito às instituições, a confiança pública pode ser comprometida. As consequências não ficam restritas aos grupos que disputam o poder. Elas podem alcançar a qualidade dos serviços públicos, a aplicação dos recursos, a proteção dos direitos e a própria convivência entre os cidadãos.

Não por acaso, a Constituição Federal estabelece, entre os fundamentos da República, a cidadania e o pluralismo político. Também determina que a administração pública obedeça, entre outros, aos princípios da legalidade, da impessoalidade, da moralidade e da eficiência. São referências que ultrapassam preferências partidárias e integram o funcionamento do Estado democrático. Isso não significa exigir que todos pensem da mesma maneira. Significa reconhecer que as divergências políticas não eliminam a responsabilidade ética.

O eleitor não precisa abandonar suas convicções, mas deve ser capaz de examiná-las criticamente. Informar-se, confrontar declarações com fatos, avaliar propostas e observar a conduta dos candidatos são atitudes que contribuem para uma escolha mais consciente.
A democracia não se fortalece quando cidadãos defendem seus representantes a qualquer custo. Fortalece-se quando há liberdade para questionar, reconhecer falhas e cobrar responsabilidades, inclusive daqueles com quem existe afinidade ideológica. Afinal, nenhum projeto político deveria estar acima do interesse público, e nenhuma identidade partidária deveria servir de justificativa automática para condutas incompatíveis com a ética.

Vale lembrar que o voto pertence a cada cidadão, mas a responsabilidade pelas escolhas democráticas precisa ser compreendida à luz de suas consequências para todos. No momento de decidir, talvez a reflexão mais importante não seja apenas perguntar se um candidato representa nossas ideias, mas também considerar como ele exerce suas responsabilidades e respeita os limites que a vida pública impõe, porque a democracia não depende somente de quem vence uma eleição. Depende também dos valores que orientam as escolhas, da disposição para fiscalizar o poder e da capacidade de colocar o bem comum acima da conveniência de um grupo, pois a ideologia pode orientar uma escolha, porém  a ética precisa continuar sendo um parâmetro para avaliar a conduta de todos.

 

 

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