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Ele não era o noivo, mas virou personagem de incontáveis casamentos em Orleans; conheça a história de Mário Galvane

Aos 76 anos, Mário guarda lembranças de incontáveis celebrações, presentes entregues aos noivos e mais de 200 fotografias que ajudam a contar a trajetória de um dos personagens mais conhecidos da cidade

Por Ligado no Sul23/10/2026 09h00
Foto/Redação

Quantos casamentos uma pessoa pode frequentar ao longo da vida? Para Mário Galvane, de 76 anos, morador de Orleans, a resposta não é tão simples. Foram tantos que nem ele consegue dizer ao certo. A família guarda mais de 200 fotografias, mas sabe que o número de festas das quais participou é muito maior. Em muitas delas, seu Mário aparece ao lado das noivas, com o sorriso de quem encontrou nas celebrações uma das maiores alegrias da vida.

Conhecido por gerações de famílias orleanenses, ele transformou o hábito de frequentar casamentos em uma tradição. Não importava se a festa era perto ou longe, se havia transporte ou se precisaria caminhar. Quando descobria que alguém iria se casar, fazia o possível para estar presente.

A história começou muito antes das fotografias que hoje ajudam a preservar suas lembranças. Na infância, na comunidade de Barracão, no interior de Orleans, Mário já gostava de estar onde havia movimento, gente reunida e alguma comemoração.

Ao recordar aquele período, ele admite que era uma criança bastante bagunceira. Entre as travessuras, conta que certa vez foi buscar ovos em um galinheiro e acabou surpreendido pela dona do local, que atirou os ovos em seu rosto. A história é uma das recordações de um menino que também tocava o sino da igreja e gostava de participar das festas da comunidade.

Seu Mário lembra com carinho das comemorações no interior. Conta que gostava das comidas servidas nas festas, dos encontros entre os moradores e dos bailes, que mais tarde se tornariam uma das suas atrações preferidas nos casamentos.

Com o passar dos anos, o interesse pelas festas ganhou um destino especial: as cerimônias de casamento.

Naquela época, não era preciso receber um convite para saber onde haveria uma celebração. Mário conta que prestava atenção aos anúncios transmitidos pelo rádio e, quando descobria um casamento, procurava uma maneira de participar.

“Eu escutava no rádio quando tinha”, recordou.

O caminho até as festas nem sempre era fácil. Ele lembra que muitas vezes precisava percorrer longas distâncias a pé. Em outras ocasiões, conseguia carona. Entre os trajetos que guarda na memória estão as caminhadas pela região do Morro da Santinha.

Aos poucos, sua presença deixou de ser surpresa. Mário conta que ficou conhecido entre as famílias e passou a receber convites dos próprios noivos.

“Eles convidavam, dava convite”, lembrou.

E assim, casamento após casamento, ele passou a fazer parte das histórias de muita gente.

Fotos: Acervo Mário Galvane.

Uma panela de pressão, fotografias e muitas histórias

Seu Mário não gostava de chegar às festas sem levar alguma lembrança para os recém-casados. Ao falar dos presentes, recorda que costumava escolher utensílios domésticos, como panelas, pratos e jogos de xícaras.

“Dava uma panela, copo, um jogo de xícara, de tudo”, contou.

Entre os casamentos que guarda na memória está o de Thayni Librelato e Ulisses Gabriel. Mário lembra que escolheu uma panela de pressão para presentear o casal.

“Eu dei uma panela de pressão pra eles”, contou.

Segundo seu Mário, os noivos gostaram do presente. Essa é uma das lembranças que ele conserva entre tantas celebrações das quais participou.

Mas os presentes eram apenas uma parte da diversão. Outro costume de Mário era aproveitar as festas para tirar fotografias, principalmente ao lado das noivas.

Ao recordar esses momentos, ele revelou uma travessura que ajuda a entender seu jeito brincalhão. Quando recebia algumas fotografias, e não gostava, ele costumava recortar a imagem para retirar o noivo e deixar apenas a noiva ao seu lado.

“Eu cortava o noivo, só deixava a noiva”, contou

A revelação é uma das histórias curiosas de quem participou de tantas celebrações. Segundo a família, mais de 200 fotografias foram preservadas ao longo dos anos, embora nem todos os casamentos tenham deixado registros.

Seu Mário também conta que gostava de acompanhar toda a comemoração. A cerimônia religiosa fazia parte do programa, mas ele não dispensava o jantar e, principalmente, a oportunidade de dançar.

“Eu gostava de ir no casamento pra dançar, comer”, recordou.

Quando perguntado sobre o que mais gostava nas festas, respondeu sem escolher uma única atração.

“Da comida ou do baile. De tudo.”

Entre as celebrações que ainda consegue recordar está um casamento realizado no Orleans Tênis Clube. Embora não se lembre de todos os detalhes, a festa permaneceu em sua memória.

Ao falar daquela época, Mário também relembra o esforço para chegar aos locais das comemorações. As caminhadas eram frequentes e, muitas vezes, a volta para casa acontecia depois de uma noite inteira de festa.

Uma história que chegou ao Guinness Book

A quantidade de casamentos frequentados por Mário chamou a atenção e motivou uma iniciativa para incluí-lo no Guinness Book, o Livro dos Recordes.

A gestão anterior da Apae, responsável pela iniciativa, chegou a iniciar o processo de inscrição. No entanto, a falta de documentação necessária impediu que o procedimento tivesse continuidade.

A dificuldade está justamente em comprovar todas as celebrações. Embora a família guarde mais de 200 fotografias, não existe um levantamento completo de quantos casamentos Mário frequentou durante a vida.

O reconhecimento oficial não veio, mas seu Mário já conquistou um lugar especial na memória de Orleans. Sua presença nas festas, os presentes entregues aos noivos e as fotografias ajudaram a torná-lo uma figura conhecida e querida por muitas famílias.

Os casamentos ficaram na memória, mas a alegria dos encontros continua

Hoje, aos 76 anos, Mário já não consegue participar dos casamentos como fazia antigamente. Ao falar sobre a mudança na rotina, conta que passou a enfrentar dificuldades para caminhar, o que o afastou das festas de que tanto gostava.

“Eu andava bem em casa […] a perna empacou, fui tentar andar de novo, não deu mais”, relatou.

Apesar disso, ele continua a encontrar atividades para ocupar seus dias. Aluno da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de Orleans, seu Mário conta que gosta especialmente dos trabalhos artísticos desenvolvidos na instituição.

A pintura de desenhos e a confecção de colares estão entre suas atividades preferidas. Ele explica que também costuma produzir as peças em casa e lembra que já chegou a vendê-las por R$ 10 no Tênis Clube.

“Eu fico pintando desenho e fazendo colar lá em casa o dia inteiro”, contou.

Ao falar da APAE, Mário demonstra satisfação com a rotina e com as atividades realizadas ao lado dos colegas.

“Eu gosto de frequentar a APAE. Muita coisa bonita. A gente faz muita coisa bonita”, afirmou.

O gosto pelas fotografias também permanece. Mesmo sem frequentar os casamentos, ele continua a valorizar os encontros com pessoas conhecidas e recorda que já tirou uma foto com o prefeito Fernando Cruzetta durante uma festa de São Jerônimo.

“Todo mundo na cidade me conhece. Já tirei foto com o prefeito”, disse.

A frase resume um pouco da relação que Mário construiu com Orleans ao longo de tantos anos. Ele conhece muitas pessoas e também é reconhecido por quem, em algum momento, cruzou seu caminho nas igrejas, nos salões de festas ou nas comemorações da cidade.

Seu Mário talvez nunca saiba quantos casamentos frequentou. Também seria difícil contar quantos quilômetros caminhou para chegar às festas, quantas vezes dançou ou quantos presentes entregou aos recém-casados.

Mas as fotografias guardadas pela família ajudam a contar parte dessa história. Em cada uma delas, há um casal, uma celebração e a presença de um homem que encontrou nos casamentos uma maneira especial de participar da vida de sua comunidade.

Hoje, enquanto os casais seguem suas histórias e as fotografias antigas permanecem guardadas, Mário continua a fazer parte dessas lembranças.

O homem que tanto gostava de participar da felicidade dos outros acabou por construir, sem perceber, uma história que a cidade também aprendeu a guardar.

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