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A cultura que ninguém vê: o que realmente sustenta uma empresa por dentro?

Terceiro encontro da sexta temporada reúne especialistas para discutir pessoas, cultura, tecnologia e os desafios que aparecem quando uma empresa começa a crescer

Por Ligado no Sul02/09/2026 16h00
Foto/Redação

Crescer é, em geral, um sinal de que os negócios estão dando certo. Mas, quando uma empresa aumenta de tamanho, também aumentam as responsabilidades, a necessidade de organização e os desafios para manter aquilo que funcionava quando a estrutura era menor. É nesse ponto que surge uma pergunta que nem sempre aparece nos balanços: o que sustenta uma empresa enquanto ela cresce?

Foi a partir dessa questão que o terceiro encontro da sexta temporada especial do Papo Empreendedor colocou em discussão temas como gestão de pessoas, cultura organizacional, tecnologia e liderança.

A apresentadora Anna conduziu o episódio ao lado de Adria Felipe, que participou como coapresentadora. Executiva de Governança Corporativa da Áurea Alimentos e presidente da ACIVALE (Associação Empresarial do Vale do Braço do Norte), Adria atua também em temas relacionados à governança, continuidade de empresas familiares, qualificação de mão de obra, associativismo e desenvolvimento regional.

Para falar sobre o assunto, o programa recebeu Vera Ceolin, administradora de empresas, palestrante, treinadora e consultora em Desenvolvimento Humano e Organizacional, com 27 anos de atuação na área. Vera é idealizadora do ConversaRH, escritora e autora do capítulo “Cultura Organizacional que Gera Crescimento”, publicado no livro Código dos Grandes Negócios.

Também participou do encontro Silvia Coleraus, sócia e diretora Comercial, de Comunicação e Marketing da Maná do Brasil. Formada em Ciências Contábeis, Silvia é vice-presidente do CEME/Facisc e vice-presidente da ACIJ. Também possui trajetória de participação no PGVE (Programa de Gestão e Vivência Empresarial), da Fundação Empreender.

A conversa começou pelas pessoas. E, para Vera, a mudança no mercado de trabalho nos últimos anos alterou profundamente a maneira como as empresas precisam pensar suas equipes.

Quando iniciou sua trajetória na área de Recursos Humanos, segundo ela, havia uma oferta de trabalhadores muito maior. Hoje, a dificuldade está em encontrar profissionais e, principalmente, em fazer com que eles permaneçam e construam uma trajetória dentro das organizações.

“Antes a gente tinha mão de obra e hoje a gente precisa ter talento. Hoje a gente precisa de pessoas que acreditem no seu sonho junto contigo”, afirmou.

A diferença, para a especialista, está justamente na relação criada entre empresa e funcionário. Não basta preencher uma vaga. É preciso oferecer condições para que o profissional se desenvolva e compreenda qual é o seu papel dentro daquele negócio.

Essa transformação também aparece na própria trajetória de Silvia Coleraus.

Formada em Ciências Contábeis, ela contou que chegou a imaginar uma carreira na área e tinha o sonho de se tornar auditora fiscal da Receita. A aproximação com a indústria durante a universidade, porém, mudou seus planos. Foi quando descobriu o setor comercial.

Silvia passou por empresas como Portobello, Café e Perdigão até chegar à Maná do Brasil. Na Perdigão, tornou-se a primeira mulher vendedora da empresa em uma época em que as negociações com grandes redes supermercadistas eram predominantemente realizadas por homens.

A experiência também ajudou a mudar sua própria percepção sobre o que significava trabalhar com vendas.

Para ela, vender não é uma função restrita ao departamento comercial. Um líder precisa vender uma ideia para a equipe, convencer um profissional a abraçar uma mudança e apresentar uma proposta ao cliente.

Foi nesse ambiente que Silvia encontrou sua identificação profissional.

“Eu quero ir pra rua. Esse é o meu mundo”, contou ao lembrar do momento em que percebeu que não queria permanecer em um trabalho exclusivamente de escritório.

A experiência comercial acabou acompanhando outra transformação: a da própria Maná do Brasil.

A empresa, que começou entregando refeições de bicicleta, passou por um processo de expansão e hoje está presente em 15 estados, atendendo mais de 150 clientes.

O crescimento exigiu mudanças na operação. Processos que antes eram feitos manualmente passaram a contar com tecnologia. A empresa desenvolveu aplicativos para reservas, avaliações e acesso aos cardápios e adotou ferramentas para acompanhar a satisfação dos clientes nas diferentes unidades.

O sistema de gestão de Recursos Humanos também precisou ser substituído, assim como outras ferramentas utilizadas na administração das operações. Mais recentemente, a inteligência artificial entrou nesse processo.

Mas, para Silvia, existe uma parte da empresa que não pode acompanhar a mesma velocidade das ferramentas tecnológicas.

“O que não pode mudar é a parte humana”, destacou.

É justamente nesse ponto que Vera coloca a cultura organizacional como uma das bases do crescimento.

A especialista utiliza a imagem de uma árvore para explicar a relação entre cultura e resultado. Aquilo que aparece são os galhos, as folhas e os frutos. A parte que sustenta tudo, porém, está escondida: são as raízes.

“Qualquer crescimento que não tiver raiz sólida, a gente vê que tomba”, explicou.

Na prática, isso significa que metas, indicadores e resultados fazem parte da gestão, mas não funcionam sozinhos. Para crescer de maneira consistente, uma organização precisa saber por que existe, o que pretende entregar aos clientes e quais comportamentos espera das pessoas que fazem parte dela.

Foi também nesse momento que a conversa chegou a uma questão que costuma ficar associada exclusivamente ao departamento de Recursos Humanos: o desenvolvimento dos funcionários.

Adria questionou Vera sobre quando essa responsabilidade deixa de ser apenas do RH e passa a fazer parte da estratégia da empresa.

A resposta está, segundo a especialista, justamente no momento em que o empresário entende que pessoas e resultados não podem ser tratados como assuntos separados.

Treinamentos e desenvolvimento precisam estar relacionados ao que a organização pretende alcançar. E o medo de investir em alguém porque esse profissional pode deixar a empresa pode produzir o efeito contrário.

Uma equipe que permanece, mas não se desenvolve, também pode comprometer o crescimento.

Vera chamou atenção ainda para o presenteísmo, quando o funcionário está fisicamente no ambiente de trabalho, mas não apresenta o nível de participação e entrega esperado.

Para uma empresa que pretende crescer, portanto, identificar as competências que faltam e preparar as pessoas para desenvolvê-las passa a ser uma necessidade estratégica.

Silvia conhece esse desafio de perto.

Depois de participar do ConversaRH, evento no qual Vera havia abordado justamente a relação entre cultura e resultados, ela levou uma reflexão para dentro da Maná do Brasil.

A empresa havia passado por um período de forte expansão, com 19 novas operações abertas no ano anterior. Ao mesmo tempo em que a estrutura crescia, também aumentavam as áreas administrativas e de suporte.

Uma pesquisa de satisfação realizada com as operações revelou dificuldades na relação com essas áreas.

A resposta veio na retomada de um ritual que já fazia parte da empresa: o “Nosso Momento”, realizado às segundas-feiras, às 9h. Durante cerca de 30 minutos, as equipes conversam sobre a empresa, sua história, a importância do cliente e o papel de cada área.

A iniciativa também levou a uma constatação importante: não bastava preservar a cultura nas unidades que estavam diretamente em contato com os clientes. Era preciso fazer com que ela chegasse também ao administrativo.

Planejamento, produção, entrega e faturamento fazem parte da experiência oferecida ao consumidor. Se apenas quem está na ponta estiver preocupado com essa experiência, o resultado pode não ser o esperado.

A conversa avançou então para outro ponto comum nas empresas: a diferença entre aquilo que está escrito e aquilo que realmente é praticado.

Missão, visão e valores podem estar expostos em uma parede, em um site ou em uma apresentação institucional. Mas isso, por si só, não significa que façam parte da cultura da organização.

Para Vera, quem determina a cultura são os comportamentos.

“São os comportamentos que vão definir a cultura da sua organização. São os rituais, são as cerimônias, são as políticas, são aquilo que se vivencia quando ninguém está vendo”, afirmou.

Se uma empresa diz que tem foco no cliente, por exemplo, seus profissionais precisam saber o que isso significa na prática. O mesmo vale para valores como ética, respeito e integração.

É essa tradução dos valores para o cotidiano que, na visão da especialista, faz com que a cultura deixe de ser apenas um discurso.

Silvia apresentou um exemplo vivido pela Maná do Brasil para mostrar como essa cultura também pode aparecer em pequenas atitudes.

A empresa atua em hospitais, onde as equipes precisam seguir regras rigorosas de segurança e alimentação. Ao mesmo tempo, os funcionários são estimulados a enxergar quem está do outro lado daquele serviço.

Uma refeição pode chegar a um paciente que está passando por um momento difícil. Em algumas situações, os próprios funcionários fazem cartões ou pequenos bolos para pessoas internadas que estão comemorando aniversário.

Os procedimentos técnicos continuam sendo os mesmos. O que muda é a maneira como o profissional compreende o significado do próprio trabalho.

Para Vera, essa percepção é fundamental. Quando uma pessoa entende o impacto daquilo que faz, o trabalho deixa de ser apenas uma sequência de tarefas ou indicadores.

Uma empresa pode crescer em número de unidades, clientes, funcionários e faturamento, mas o crescimento também exige que ela saiba preservar aquilo que dá sentido ao negócio.

Tecnologia, processos e ferramentas ajudam a acompanhar uma operação maior. Pessoas e cultura, porém, continuam sendo parte da estrutura que sustenta esse crescimento.

Conheça um pouco mais sobre cada uma das entrevistadas 

Vera Ceolin

  • Cultura é… Engajamento
  • Uma característica indispensável em um líder? Desenvolvimento
  • Uma conversa que todo líder precisa aprender a ter? Feedback constante
  • Uma habilidade que nenhuma inteligência artificial substitui? Acolhimento
  • Um comportamento que você precisou desaprender? Pedir ajuda
  • Um livro que te marcou? O pequeno príncipe
  • O que faz alguém permanecer em uma empresa? Pertencer
  • Um conselho para quem assumiu a primeira liderança? Acredite em ti
  • O que significa sucesso hoje? Ter paz no coração
  • Uma palavra para o seu próximo capítulo profissional? Vamos romper fronteiras?

Silvia Coleraus

  • Vender ou relacionar? Relacionar,
  • Uma característica indispensável em um bom comercial? Ser agradável
  • Cliente difícil ensina o quê? Ensina que tu tens espaço para melhorar
  • Uma decisão corajosa na sua carreira? Deixar a CLT
  • Um hábito que te aproxima do cliente? Se interessar realmente pelo outro
  • Uma marca que você admira? Cimed
  • Uma coisa que crescimento exige? Coragem
  • Um conselho para uma mulher que quer ocupar mais espaço nos negócios? Disponibilidade e principalmente acalmar a voz interior da auto cobrança
  • Onde você imagina a Maná daqui a cinco anos? Mais forte no Sudeste e com mais negócios em setores como farmacêuticas e agronegócios

 

Confira entrevista completa

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