Quando a Serra movimenta a região
A estrada que leva à Serra do Rio do Rastro também pode ser lida como uma rota de oportunidades. Aos pés da montanha, Orleans ocupa uma posição estratégica em um movimento turístico que ultrapassa os limites dos municípios serranos e começa a movimentar uma cadeia cada vez mais ampla de negócios.
O visitante que sobe a serra não deixa de consumir quando passa por Orleans. Ao contrário: hotéis, restaurantes, empresas de serviços, comércio, indústria e empreendedores de diferentes segmentos podem ser impactados por um fluxo que não respeita fronteiras municipais.
Fernanda Alberton, coordenadora do Núcleo de Mulheres Empreendedoras da Associação Empresarial de Orleans (ACIO), diz que esse processo exige uma visão integrada. “Quando a gente fala em turismo na Serra, tudo o que acontece aqui acaba refletindo lá embaixo. O nosso empreendedorismo precisa dessas conexões, dessas ligações e desses laços fortalecidos”, afirma.
A percepção de que cada município pode trabalhar isoladamente começa a perder espaço. A Serra, Orleans e as cidades do entorno passam a ser compreendidas como partes de um mesmo ecossistema turístico e econômico. Um visitante pode conhecer uma cervejaria em Orleans, seguir para a Serra, visitar uma vinícola, hospedar-se em outro município e consumir em diferentes pontos da região. Quando o destino é pensado de forma integrada, o benefício deixa de pertencer a uma única cidade.
Leandro Felippe, coordenador Núcleo de Jovens Empreendedores da ACIO, lembra que essa integração também se aplica ao ambiente empresarial. “Quando entrei na associação, percebi o quanto é importante ter esse networking e essa troca de ideias com outros empresários. Se eu tivesse procurado isso no início da minha empresa, provavelmente teria passado por muito menos dificuldades do que passei caminhando sozinho”, relata.
O associativismo, nesse contexto, funciona como uma espécie de infraestrutura invisível do desenvolvimento. É por meio dele que empreendedores encontram capacitação, compartilham experiências e buscam soluções para problemas que, muitas vezes, são comuns a diferentes setores.
No Núcleo da Mulher Empreendedora, Fernanda observa que a procura não está apenas por cursos técnicos. Muitas empreendedoras buscam também fortalecimento, autoconhecimento e apoio para enfrentar os desafios de administrar um negócio. “Quando uma mulher cresce, ela consegue levar muitas outras junto. No núcleo, existe essa busca constante por desenvolvimento, capacitação e fortalecimento”, afirma.
A necessidade de qualificação ganha ainda mais importância em um setor como o turismo, no qual o perfil do consumidor está em constante transformação. O visitante já não busca apenas um lugar para dormir ou uma refeição. Ele procura experiências, atendimento, identidade e algo que justifique a escolha daquele destino.
Para acompanhar essa mudança, não basta repetir fórmulas antigas. O empreendedor precisa compreender o próprio negócio, conhecer o consumidor e estar disposto a aprender continuamente.
Fernanda resume esse processo em duas frentes: capacitação e autodesenvolvimento. “Antes de existir um CNPJ, existe uma pessoa. Eu preciso me conhecer e me desenvolver para também transformar a minha empresa. A capacitação precisa ser contínua”, afirma.
Essa necessidade também aparece entre os empreendedores mais jovens. O Núcleo Jovem da ACIO não reúne apenas empresas recém-criadas, mas empresários que buscam trocar experiências e encontrar apoio para enfrentar os desafios de uma jornada que, muitas vezes, começa de forma solitária.
O aprendizado entre gerações é especialmente importante em empresas familiares. Modelos que funcionaram para pais e avós podem não responder às exigências atuais de mercado. A mudança no comportamento do consumidor, a digitalização dos negócios e a transformação do turismo exigem novas competências.
Orleans também começa a olhar para dentro de si mesma. Conhecida como a capital catarinense da cultura, a cidade possui patrimônio histórico, paisagens, gastronomia e uma localização privilegiada entre o litoral e a Serra. Ainda assim, parte desse potencial permanece desconhecida até mesmo por quem vive na região. “Às vezes ficamos presos à rotina e não percebemos as belezas, a história e a cultura que temos. Existem várias possibilidades de novas rotas de turismo na nossa região”, observa Leandro.
A proximidade com a Serra do Rio do Rastro e com o litoral coloca Orleans em uma posição estratégica. Em pouco tempo de deslocamento, o visitante pode sair da montanha e chegar ao mar. Essa diversidade, porém, precisa ser transformada em produto turístico, com planejamento, divulgação e integração entre a iniciativa pública e privada.
O desafio é fazer com que a cidade deixe de ser apenas um ponto de passagem e passe a ser reconhecida também como parte da experiência regional.
Para isso, o caminho passa por projetos, parcerias e pela capacidade de os próprios empreendedores enxergarem o potencial existente ao redor. O turismo, afinal, não é uma atividade isolada. Ele depende de estradas, hospedagem, gastronomia, comércio, serviços, cultura e pessoas preparadas para receber.
A Serra pode ser o destino final, mas o desenvolvimento não termina no alto da montanha. Ele se espalha pelas cidades do entorno, movimenta empresas e cria oportunidades para quem compreende que, no turismo, uma região inteira pode ganhar quando deixa de competir sozinha e passa a trabalhar em conjunto.

