Mentalidade forte, equipe forte: Como preparar pessoas para desafios reais
Empreender, liderar uma equipe ou simplesmente atravessar os desafios da vida exige mais do que conhecimento técnico. Em algum momento, o telefone toca com um problema inesperado, um cliente muda de ideia, uma equipe aguarda uma resposta ou o mercado muda de direção antes que todas as informações estejam disponíveis. É nesse intervalo entre o problema e a decisão que, segundo Juliano Broggio, se revela a capacidade de uma pessoa de manter a clareza, agir sob pressão e seguir em frente.
A trajetória de Juliano ajuda a explicar a visão que hoje leva a empresas, treinamentos e palestras. Ex-atleta da seleção brasileira de canoagem, professor de matemática, especialista em matemática financeira e estatística e policial civil de Santa Catarina, ele construiu a carreira em ambientes que exigem disciplina, resistência e tomada de decisão.
Em 2021, concluiu o terceiro Curso de Operações Especiais da Polícia Civil de Santa Catarina e passou a integrar o CORE, a Coordenadoria de Operações e Recursos Especiais, onde atuou por mais de três anos. Atualmente, é policial civil e instrutor da Academia de Polícia Civil, além de trabalhar com palestras, treinamentos e mentorias voltados ao desenvolvimento humano e empresarial.
A ideia que conecta essas experiências é definida por ele como “mentalidade de combate aplicada”. O conceito, explica, não se limita ao confronto físico ou à atividade policial. Trata-se de uma forma de pensar diante dos problemas. “Combate no sentido mais amplo da palavra. Não combate só um combate armado, um combate de luta ou algo assim, mas um combate no sentido de você entender que, durante a nossa vida, os problemas vão acontecer. A gente não tem como fugir deles”, afirma.
A lógica, segundo Juliano, pode ser aplicada a diferentes áreas: do esporte de alto rendimento ao ambiente corporativo, das relações familiares aos desafios cotidianos. O princípio é o mesmo: preparar-se para agir quando a situação deixar de ser confortável.
A primeira experiência de Juliano com a pressão veio ainda na adolescência. Durante seis anos, foi atleta de canoagem e chegou à seleção brasileira da modalidade. O esporte de alto rendimento, diz, foi seu primeiro contato com a necessidade de manter a performance mesmo quando o corpo e a mente pedem para parar. “Talvez ali tenha sido a minha primeira experiência com relação à pressão, com relação ao alto rendimento, à necessidade de performar de alguma forma mesmo nos momentos de dificuldade”, conta.
A experiência acabou se tornando uma espécie de laboratório para o que viria depois. No esporte, aprendeu que desempenho não depende apenas de talento. É resultado de repetição, preparação e capacidade de suportar o processo.
Mais tarde, essa percepção se encontraria com a formação em matemática e com a experiência de 16 anos na educação. Filho de uma professora de matemática e de um agricultor, Juliano escolheu inicialmente a graduação em matemática, em uma universidade pública, em vez do curso de Direito, que também havia sido aprovado, mas seria realizado em uma instituição privada.
A decisão teve um componente prático: ele não queria que os pais pagassem sua faculdade. No primeiro ano do curso, começou a dar aulas. A atividade, que inicialmente poderia parecer apenas uma forma de sustentar os estudos, acabou se transformando em uma carreira.
Juliano passou pelo ensino básico, por cursos preparatórios, vestibulares e concursos públicos. Foi nesse período que a segurança pública voltou a aparecer em seu horizonte. Ao preparar alunos para concursos de carreiras policiais, começou a considerar a possibilidade de ele próprio seguir esse caminho.
A aprovação para a Polícia Civil de Santa Catarina veio em 2014. Dois anos depois, ele foi chamado para assumir o cargo. Em julho de 2026, completou dez anos de atuação na polícia. Ao longo do percurso, as experiências anteriores não desapareceram. Pelo contrário: foram incorporadas à nova profissão. A matemática contribuiu para o raciocínio lógico; a educação, para a comunicação e o desenvolvimento de pessoas; o esporte, para a disciplina e a resistência; e a polícia, para o treinamento sob pressão.
Para Juliano, essa combinação explica por que sua trajetória pode parecer diversa, mas não é desconectada. As diferentes áreas foram construindo habilidades que hoje se complementam.
Uma das ideias centrais de seu trabalho é que a mudança começa antes da ação. Pensamentos, crenças e experiências influenciam sentimentos; sentimentos influenciam ações; e as ações produzem resultados.
Por isso, quando alguém deseja mudar o resultado, precisa começar pela forma como pensa e pelas habilidades que desenvolveu — ou ainda não desenvolveu. “Tudo é mentalidade e tudo é treino”, resume.
A frase não significa, segundo ele, que qualquer pessoa possa simplesmente decidir mudar e produzir resultados imediatos. Há limitações técnicas, crenças, hábitos e circunstâncias que precisam ser enfrentados. Mas, na visão de Juliano, muitas dessas barreiras podem ser trabalhadas com estudo, prática, repetição e correção. “Tudo que você quiser aprender, começar a treinar e se desenvolver e testar e repetir, errar, acertar, vai corrigindo e, nesse processo, você vai chegar nos resultados que deseja”, afirma.
O raciocínio vale para empresas, profissionais e líderes. Uma organização que pretende alcançar um novo patamar não pode esperar resultados diferentes repetindo indefinidamente as mesmas práticas.
O preço de tentar ser ótimo em tudo
A busca pelo sucesso, na avaliação de Juliano, tornou-se uma fonte de pressão permanente. O líder contemporâneo é frequentemente apresentado como alguém que precisa acordar cedo, treinar, comer de forma saudável, cuidar da família, produzir, estudar, liderar, inovar e manter a saúde mental em dia. O problema é que esse modelo pode transformar o sucesso em uma espécie de obrigação impossível.
Juliano rejeita a ideia de que exista um padrão universal de realização. Para algumas pessoas, sucesso pode significar crescimento financeiro. Para outras, pode estar relacionado à família, à saúde, à liberdade ou ao trabalho que escolhem exercer.
O ponto, portanto, não seria alcançar a nota máxima em todas as áreas da vida, mas decidir quais áreas receberão mais energia em determinado momento.
Ele compara a vida a um equalizador de som. Os diferentes campos — trabalho, família, saúde, relacionamentos — seriam como os controles de uma mesa de áudio. Nem todos precisam estar no mesmo nível para que o conjunto funcione.
A busca por ser “ótimo” em tudo, na prática, pode produzir o efeito contrário: exaustão, culpa e sensação permanente de insuficiência.
Essa cobrança também é alimentada pelas redes sociais. Juliano lembra que o Instagram funciona como um porta-retrato: as pessoas tendem a mostrar os momentos que desejam preservar ou compartilhar, e não necessariamente a totalidade da própria vida.
Comparar a rotina real com a vitrine editada de outra pessoa, portanto, é uma equação com informações incompletas.
A rotina que não precisa ser igual à de ninguém
O próprio Juliano mantém uma rotina matinal que inclui água, café, leitura, momentos de reflexão, planejamento do dia e, em algumas fases, meditação e oração. Também pratica atividade física regularmente. Mas ele evita apresentar essa sequência como uma fórmula universal.
A rotina, explica, foi construída gradualmente e de acordo com as possibilidades de cada fase da vida. Em determinados momentos, a prioridade foi o trabalho. Em outros, a família ganhou espaço. Pai de uma menina de sete anos, Juliano afirma que a rotina precisa ser ajustada à realidade. Se a filha acorda enquanto ele está lendo ou meditando, por exemplo, a prioridade muda. “Eu paro meu livro, eu paro a meditação, para o que estiver fazendo, e dou atenção para ela”, conta.
A lógica é simples: disciplina não deve ser confundida com rigidez absoluta. A construção de hábitos, segundo ele, também não precisa começar com mudanças radicais. Uma das referências utilizadas por Juliano é o livro Hábitos Atômicos, de James Clear, que defende a construção gradual de comportamentos.
No caso da leitura, ele começou associando o hábito a algo que já fazia: preparar e tomar café. O café passou a ser acompanhado por algumas páginas de um livro. Com o tempo, a prática se consolidou. É o chamado empilhamento de hábitos: conectar uma nova prática a um comportamento que já faz parte da rotina.
A ideia também vale para quem deseja iniciar uma atividade física, estudar ou desenvolver qualquer outra habilidade. A mudança não precisa começar com uma transformação completa da vida. Pode começar com uma ação pequena, repetida com consistência.
Pressão também se treina
A experiência no Curso de Operações Especiais reforçou uma convicção que Juliano já carregava do esporte: a capacidade de agir sob pressão pode ser desenvolvida.
Durante a formação, os participantes são submetidos a situações de fome, frio, sono, sede e cansaço, enquanto precisam continuar executando tarefas técnicas e físicas. O objetivo, explica, é retirar o indivíduo de seu estado natural de conforto e observar sua capacidade de manter um nível mínimo de desempenho mesmo diante do estresse.
Para ele, a lógica pode ser adaptada à vida cotidiana. Não se trata de criar sofrimento artificial ou de transformar o desconforto em um valor absoluto, mas de compreender que a exposição gradual a desafios pode ampliar a capacidade de enfrentamento. “Se você se coloca em situações desconfortáveis gradativamente, na medida certa, intencionalmente, isso vai te dando um processo de resiliência, de conseguir lidar melhor com essas situações adversas”, afirma.
O desconforto pode assumir diferentes formas. Para alguns, é o esporte. Para outros, uma atividade física, uma dieta, uma prova, uma apresentação ou uma tarefa que normalmente seria evitada. O princípio é colocar-se, de maneira consciente e gradual, diante de situações que exigem esforço.
A ideia, entretanto, tem um contraponto importante: nem todo sofrimento produz crescimento. O desconforto precisa ser proporcional, intencional e compatível com os limites de cada pessoa. Transformar a exaustão em prova de mérito pode ser apenas outra forma de adoecimento.
Conhecimento sem ação não muda comportamento
Um dos desafios mais comuns nas empresas é transformar cursos, palestras e treinamentos em mudanças concretas. As pessoas aprendem conceitos, anotam ideias e reconhecem a importância de determinados comportamentos. Ainda assim, muitas vezes continuam agindo da mesma maneira.
Para Juliano, a diferença está na decisão. “É tudo uma questão de decisão. A gente tem que decidir as coisas que são importantes para nós”, afirma.
A decisão, contudo, precisa fazer sentido para quem a toma. Uma mudança que depende apenas da expectativa externa tende a perder força quando surgem as primeiras dificuldades. É nesse ponto que ele diferencia motivação de uma espécie de entusiasmo passageiro. Ter um motivo claro para agir aumenta a possibilidade de manter o comportamento quando a novidade desaparece.
O propósito, segundo Juliano, também não precisa ser uma grande missão de vida. Pode ser mais simples e específico: um objetivo para aquele ano, para aquele período ou até para determinado dia.
A partir daí, entram as ações consistentes e a resiliência — a capacidade de continuar fazendo o que precisa ser feito mesmo quando a motivação inicial diminui. “Qualquer processo de evolução, se você está melhorando, você só melhora na zona de desconforto. Não vai ser no conforto que você vai melhorar”, resume.
A discussão sobre desempenho, no entanto, não pode ignorar a saúde mental. A comparação constante, a pressão por produtividade, as redes sociais e a sensação de que todos estão avançando mais rapidamente podem transformar a busca por evolução em uma fonte de ansiedade.
Para Juliano, o primeiro passo é o autoconhecimento. É preciso compreender tanto a situação externa que provoca determinada reação quanto a maneira como cada pessoa responde internamente a ela. Quando esse processo não é suficiente, ele defende a busca por ferramentas e ajuda adequada. Meditação, religião, conversas com pessoas de confiança e acompanhamento profissional podem fazer parte desse caminho, dependendo da necessidade de cada indivíduo.
A alta performance, nesse sentido, não deveria significar produzir indefinidamente, ignorar sinais de exaustão ou transformar a vida em uma competição permanente. O desempenho sustentável exige também capacidade de recuperação, relações preservadas e clareza sobre o que realmente importa.
A vida impõe problemas que não podem ser eliminados. O que pode ser desenvolvido é a capacidade de enfrentá-los. Entre a canoagem, a sala de aula, a matemática, a polícia e o treinamento de líderes, a mesma lógica reaparece. Preparar-se antes da crise, aceitar que a evolução exige repetição e compreender que disciplina não é ausência de dificuldade.
É, sobretudo, a decisão de continuar treinando.
Conheça um pouco mais sobre o entrevistado

Foto/redação
Juliano Gomes Broggio
- Alta performance é mais corpo ou mente? Mente
- Um habito indispensável? Atividade física
- Uma decisão que mudou sua vida? Integrar a polícia
- Um medo que você aprendeu a controlar? De altura
- Um livro que marcou sua trajetória? O clube das 5 da manhã
- Professor, atleta ou policial: qual identidade fala mais alto hoje? Professor
- O que a canoagem ensinou para a vida? Resiliência e disciplina
- O que a sala de aula ensinou para a liderança? A lidar com pessoas
- Um erro comum de liderança? Não entender as pessoas
- Coragem ou preparo? Preparo
- Razão ou intuição? Intuição
- Uma palavra que define pertencimento? Polícia
- O que você evita no ambiente profissional? Discussões desnecessárias
- Uma frase que você repete para si mesmo? Tudo é mentalidade, tudo é treino
- Qual marca você quer deixar nas pessoas? Que vale a pena correr atrás dos sonhos
- Onde você se vê daqui a cinco anos? Continuar desenvolvendo pessoas por meio de treinamentos, palestras e desenvolvimento humano

