“O Brasil perdeu a batalha da segurança pública”, afirma cientista político ao comentar decisão dos EUA
A classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas anunciada pelos Estados Unidos continua gerando repercussão. Uma reportagem publicada pela Folha de S.Paulo aponta que a medida pode trazer efeitos econômicos, financeiros e reputacionais para o Brasil, aumentando a percepção de risco para empresas e instituições que mantêm negócios ligados ao país.
Sobre o tema, o Jornal da Guarujá conversou na manhã desta segunda-feira, 1º de junho, com o cientista político Enio Coan. Para ele, a discussão vai muito além da questão diplomática e está diretamente relacionada ao avanço das facções criminosas em diversas regiões do Brasil.
Coan afirma que a preocupação das autoridades norte-americanas está ligada ao crescimento dessas organizações e à expansão de suas atividades para além do tráfico de drogas.
“Essas organizações já estão se tornando governos paralelos em certas regiões do país. Elas controlam territórios, cobram taxas, exploram serviços e impõem regras próprias. Esse é o fundamento principal da decisão do governo americano, O PCC e o CV atuam em roubos, contrabando, lavagem de dinheiro, exploração de serviços e controle de territórios. Em algumas regiões, acabam assumindo funções que deveriam ser exercidas pelo Estado”
Na avaliação de Coan, a decisão dos Estados Unidos representa também um sinal de alerta sobre a situação da segurança pública brasileira.
“O Brasil perdeu a batalha da segurança pública. É uma situação que compromete a imagem do país e gera preocupação internacional.”
O cientista político destaca que a medida não tem relação com interferência na soberania brasileira, mas com a preocupação dos Estados Unidos em impedir a atuação dessas organizações em seu território.
“O governo americano está pensando em proteger a cidadania americana. Não se trata de invadir o Brasil ou interferir na soberania nacional. O objetivo é impedir que essas organizações ampliem sua atuação dentro dos Estados Unidos.”
Segundo Coan, a preocupação também está relacionada à expansão internacional das facções brasileiras. Ele afirma que o PCC e o Comando Vermelho já possuem atuação em território americano.
“O PCC e o Comando Vermelho já estão presentes em 28 estados americanos, atuando em mais da metade dos Estados Unidos. Isso ajuda a fundamentar a decisão do governo americano e mostra que o problema deixou de ser apenas brasileiro.”
Para o cientista político, o crescimento dessas organizações dentro e fora do Brasil demonstra a dificuldade do Estado em conter o avanço do crime organizado.
“Nós estamos falando de organizações que roubam, traficam, contrabandeiam, lavam dinheiro e exercem influência em diferentes regiões. Quando elas passam a expandir suas atividades para outros países, a preocupação deixa de ser apenas nacional e passa a ter dimensão internacional.”
Em relação aos possíveis impactos econômicos, Coan acredita que os reflexos mais significativos podem ocorrer no sistema financeiro.
“Não vejo um risco imediato para os setores produtivos do país. Mas o sistema financeiro pode ser impactado, porque organizações criminosas utilizam mecanismos financeiros para movimentação e lavagem de recursos.”
Segundo ele, caso sejam identificadas conexões entre operações financeiras brasileiras e atividades ligadas ao crime organizado, o país pode enfrentar restrições e perda de credibilidade internacional.
“Se ficar comprovada a utilização do sistema financeiro para movimentação de recursos dessas organizações, o Brasil pode sofrer sanções e ter sua credibilidade afetada. Isso acaba atingindo empresas e cidadãos que utilizam o mesmo sistema.”
Durante a entrevista, Coan também comentou sobre o uso de ferramentas digitais para movimentação de recursos, incluindo o Pix. Para ele, a tecnologia trouxe avanços importantes para a população, mas também pode ser utilizada por organizações criminosas devido à rapidez das transações.
“O Pix facilitou a vida dos brasileiros e é uma ferramenta extremamente eficiente. Mas, como qualquer sistema financeiro moderno, pode ser utilizado por pessoas que atuam à margem da lei. Por isso, os mecanismos de fiscalização e rastreamento são fundamentais.”
Confira entrevista completa
