As porteiras que se abriram para o turismo na Serra Catarinense
Uma fazenda registrada em 1775 transforma quase 250 anos de história em experiências que aproximam visitantes da natureza e do modo de vida serrano
Em Bom Jardim da Serra, algumas histórias começaram muito antes de existir a palavra turismo. A Fazenda Rincão da Palha, por exemplo, tem sua primeira escritura registrada em 1775, em um período em que a Serra Catarinense era formada por grandes propriedades rurais, criação de animais e famílias que ajudaram a construir a identidade do território.
Quase 250 anos depois, a mesma terra que sustentou gerações de uma família começa a cumprir uma nova função: receber visitantes interessados justamente naquilo que sempre esteve presente no cotidiano da fazenda, a paisagem, o silêncio, a cultura, os animais e o modo de vida serrano.
A história da Rincão da Palha se conecta com um movimento maior que começa a transformar Bom Jardim da Serra. Em uma região conhecida durante décadas principalmente pelo frio, pela geada e pelos campos de altitude, o turismo passa a ser visto como uma nova frente de desenvolvimento econômico, capaz de valorizar aquilo que a Serra sempre teve: natureza, identidade e tradição.
Diretor de Turismo, Cultura e Desenvolvimento de Bom Jardim da Serra e um dos proprietários da Fazenda Rincão da Palha, Benito Sbruzzi acompanha essa transformação de dois lugares diferentes: como gestor público, ajudando a estruturar o destino; e como empreendedor rural, vivendo dentro da própria propriedade a transição de uma economia baseada na produção para uma economia também baseada em experiências.
Sexta geração de uma família estabelecida na Serra Catarinense desde 1775, Sbruzzi cresceu ligado ao campo. Zootecnista de formação, guia de turismo e empreendedor, chegou ao setor turístico depois de uma trajetória ligada à produção rural. A aproximação com a atividade fez surgir uma percepção que hoje orienta seu trabalho: aquilo que para os moradores locais parece parte da rotina pode representar uma experiência rara para quem vem de fora. “O que é comum para nós, às vezes, é extraordinário para outras pessoas. Um fogão a lenha, um fogo de chão, conhecer uma ovelha, uma galinha, colher uma fruta ou simplesmente caminhar pela mata. Para muita gente isso é uma experiência única.”
Durante muito tempo, a Serra Catarinense foi associada principalmente ao inverno. O frio intenso, a possibilidade de neve e as paisagens cobertas pela geada eram os grandes atrativos. Agora, a busca vai além da temperatura.
O visitante quer conhecer histórias, participar da rotina do campo, experimentar sabores locais e criar memórias. A paisagem deixou de ser apenas um cenário para fotografias e passou a ser parte de uma experiência. Essa nova fase também representa uma oportunidade econômica para uma região que historicamente teve sua base na agricultura e na pecuária. “A maçã não é fácil para todo mundo, o gado também tem seus desafios. O turismo vem com esse propósito econômico para uma região que não tem tanta indústria e comércio. Hoje as pessoas começaram a enxergar o verdadeiro potencial que ele tem.”
Essa transformação pode ser observada dentro da própria Fazenda Rincão da Palha. A propriedade surgiu a partir das sucessivas partilhas da antiga Fazenda do Socorro, uma das áreas que ajudaram a formar a ocupação histórica da Serra Catarinense. Sua primeira escritura é datada de 1775, e os atuais proprietários pertencem à sexta e à sétima geração de descendentes.
Durante quase três séculos, a fazenda esteve ligada principalmente à bovinocultura e à ovinocultura de corte, além da produção de maçãs e pequenas hortas para consumo próprio. A atividade turística surgiu como uma forma de valorizar um patrimônio que já existia. A abertura das porteiras aconteceu depois de uma situação inesperada. Após uma gravação espontânea de um programa de televisão na propriedade, aumentou a procura de pessoas interessadas em conhecer aquele lugar.

A família percebeu que havia uma oportunidade. O que fazia parte da rotina dos moradores da fazenda, o contato com os animais, o silêncio do campo, a paisagem das araucárias, o fogo da lareira e os caminhos rurais, era justamente o que muitos visitantes buscavam encontrar.
Hoje, a Rincão da Palha recebe turistas interessados em uma aproximação com o modo de vida serrano. A propriedade oferece hospedagem, trilhas, contato com animais, paisagens naturais e experiências ligadas à cultura rural.
A proposta não é criar uma representação artificial do campo, mas permitir que o visitante conheça uma realidade que continua viva. “É um empreendimento que a gente tem com muito carinho. Traz benefício para a alma, para a experiência e para a mente.”
A história da fazenda acompanha uma mudança maior na Serra Catarinense: a valorização das propriedades rurais como espaços de experiência e geração de renda. Mas, para que esse movimento cresça, Sbruzzi acredita que o desenvolvimento precisa ser coletivo.
Durante muitos anos, municípios e empreendedores buscavam destacar seus próprios diferenciais. Hoje, segundo ele, começa a surgir uma nova mentalidade, baseada na cooperação. “Hoje a gente não vê mais uma competição entre cidades e empreendedores. Existe um pensamento coletivo.”
Essa aproximação aparece em ações conjuntas entre os municípios da região, na participação em eventos e na troca de informações entre gestores e empresários. O turista não enxerga as divisões administrativas da mesma forma que quem vive na região. “O turista não quer saber se ele está em Urubici, São Joaquim ou Bom Jardim da Serra. O que precisamos é proporcionar experiências de qualidade e fazer com que ele tenha uma boa vivência aqui.”
Essa visão transforma a Serra em um único território turístico, reunindo diferentes produtos e experiências. A gastronomia regional, os vinhos de altitude, o mel, o queijo serrano, a maçã, os cânions e as paisagens naturais passam a fazer parte de uma mesma narrativa. “A gente precisa entender que construiu uma rota. Se pensarmos no coletivo, essa é a única saída para fazer o turismo chegar ao nível que sabemos que ele pode chegar.”
Para consolidar esse destino, outro desafio é aproximar ainda mais os próprios empreendedores. Na avaliação de Sbruzzi, conhecer as histórias por trás dos negócios é essencial para fortalecer a divulgação da região. “Eu só conheço aquilo que eu indico. Quando conhecemos alguém, conhecemos a história daquela pessoa, daquele empreendimento, daquela trilha, fica muito mais fácil divulgar.”
A sustentabilidade também ganhou espaço nessa nova estratégia. Bom Jardim da Serra possui a certificação internacional Green Destinations, voltada a destinos comprometidos com práticas sustentáveis, e desenvolveu iniciativas de valorização da biodiversidade local, incluindo um levantamento com cerca de 1.800 espécies catalogadas no município.
Recentemente, Bom Jardim da Serra lançou sua marca turística com o conceito “A natureza arrepia”. A expressão reúne duas características que definem o município: o frio que provoca o arrepio e a emoção causada pelas experiências que o território proporciona. “O arrepio vem pelo frio, mas também pelo que a pessoa sente quando abre uma janela, contempla um cânion, toma um café ou vive uma experiência aqui.”
Nas fazendas centenárias, nas histórias familiares, na gastronomia e na natureza preservada, uma nova economia começa a ganhar espaço. Uma economia que transforma tradição em experiência, mantém vivas as raízes do território e abre novos caminhos para o desenvolvimento da Serra Catarinense.



