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Quando a defesa da mulher vira contradição. Por Ana Dalsasso

Por Ana Maria Dalsasso16/03/2026 16h50
Foto/Câmara dos Deputados

Na semana  anterior comemorou-se o Dia  Internacional da Mulher. Em todo o Brasil multiplicaram-se homenagens, discursos   e campanhas exaltando a força feminina, sua contribuição na família, na sociedade e no mercado de trabalho. Também ecoou, de forma cada vez mais intensa, o clamor por mais proteção às mulheres, diante de índices alarmantes de violência que continuam a assombrar o país.

O discurso é bonito. As palavras são fortes. A causa é justa. Mas, infelizmente, entre o discurso e a prática parece existir um abismo cada vez maior.

Em meio a tantas manifestações públicas em defesa da mulher, causa indignação a recente nomeação de uma mulher trans para ocupar uma comissão de políticas públicas voltadas especificamente à defesa das mulheres. A decisão, para muitos, soa como um gesto simbólico de inclusão. Para outros, porém, entre os quais me incluo, representa um profundo desrespeito à própria realidade feminina.

Não se trata de negar direitos a quem quer que seja. Toda pessoa merece dignidade, respeito e proteção. Mas também é preciso reconhecer que a luta histórica das mulheres foi construída a partir de experiências concretas: da maternidade, da desigualdade no trabalho, da violência doméstica, da exploração e da discriminação enfrentadas ao longo de gerações.

Quando estruturas criadas justamente para defender essas experiências passam a ser ocupadas por quem não viveu essa realidade biológica e social, instala-se uma contradição que muitas mulheres percebem como um verdadeiro deboche. Afinal, se até os espaços destinados à defesa feminina deixam de priorizar as próprias mulheres, que mensagem estamos transmitindo à sociedade?

Essa situação revela algo maior: uma preocupante inversão de valores que tem marcado nosso tempo. Em nome de causas legítimas, corre-se o risco de apagar outras igualmente legítimas. E, no meio desse conflito simbólico, a mulher, aquela que sempre precisou lutar por reconhecimento, parece novamente ter sua voz relativizada.

O Brasil precisa, sim, ampliar direitos e promover respeito a todos. Mas também precisa preservar a coerência das políticas públicas e a finalidade dos espaços criados para reparar injustiças históricas.

A pergunta que fica é inevitável: até onde iremos nessa confusão de conceitos e prioridades?

A defesa da mulher não pode se transformar em mera retórica ou em palco de experimentações ideológicas. Num país onde tantas mulheres ainda vivem com medo, onde a violência cresce e onde a igualdade plena está longe de ser realidade, é preciso ter clareza de propósito.

Mais do que discursos, chegou a hora de recuperar o bom senso.

E, sobretudo, de dar um basta nessa inversão de valores que ameaça esvaziar o verdadeiro sentido da luta feminina.

 

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal.

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