27/05/2020  às 17hs02 - Atualizado em 27/05/2020  às 17hs14

Geral

No Dia Nacional da Mata Atlântica, FAMOR foca na preservação

O bioma mais degradado do Brasil recebe atenção especial em Orleans, através da elaboração do Plano Municipal de Conservação e Recuperação da Mata Atlântica (PMMA).


Localidade de Cabriúva, na comunidade de Três Barras, área de Orleans que está dentro do Parque Nacional de São Joaquim; os remanescentes de Mata Atlântica no município encontram-se em meio a um relevo altamente onduloso e montanhoso, rios que nascem na encosta da serra e uma extensa área rural - Foto de Léo Matei Baschirotto

Localidade de Cabriúva, na comunidade de Três Barras, área de Orleans que está dentro do Parque Nacional de São Joaquim; os remanescentes de Mata Atlântica no município encontram-se em meio a um relevo altamente onduloso e montanhoso, rios que nascem na encosta da serra e uma extensa área rural - Foto de Léo Matei Baschirotto


No Dia Nacional da Mata Atlântica, celebrado nesta quarta-feira, dia 27 de maio, nada mais justo do que falar a respeito de preservação e recuperação. Isso porque, devido à sua localização, nas áreas em que se desenvolveram as maiores cidades do país, conforme o biólogo da Fundação Ambiental Municipal de Orleans (FAMOR), André Klein, a Mata Atlântica é o bioma mais degradado do Brasil e um dos degradados do mundo.


“Nosso estado, que possuía seus 9,6 milhões de hectares integralmente preenchidos pela Mata Atlântica, conta hoje com 29% desta área (Fundação SOS Mata Atlântica e INPE, 2018). Em Orleans, alia-se a estes fatores, sua vastidão territorial ainda predominantemente rural intercalada com grandes remanescentes preservados, o que gera uma relação muito estreita entre o humano e a mata nativa. Também se destaca sua localização nas encostas da Serra Geral catarinense e dentro de duas importantes unidades de conservação, uma nacional e outra estadual, que ao mesmo tempo propiciam recursos naturais de excelente qualidade e uma diversidade de ecossistemas, dentro e fora de seus limites, com potencial ecoturístico ainda inexplorado”, apontou o profissional.


Segundo ele, por ser, ao mesmo tempo, uma das áreas mais biodiversas e mais ameaçadas do planeta, este bioma foi reconhecido como Reserva da Biosfera pela UNESCO em 1972 e como Patrimônio Nacional pela Constituição Federal de 1988. “A Lei Federal 11.428 de 2006, conhecida como ‘Lei da Mata Atlântica’, portanto, é a que se aplica a toda atividade florestal realizada no âmbito da extensão original deste bioma, como é o caso de Orleans e de qualquer município de Santa Catarina”, contou.


Pensando nisso, há dois anos, começavam os preparativos, em Orleans, para a elaboração do Plano Municipal de Conservação e Recuperação da Mata Atlântica (PMMA). Klein explica que, por iniciativa da FAMOR, optou-se por um processo de elaboração realizado por um grupo de voluntários das mais diversas áreas do conhecimento, priorizando atores locais e com a participação ativa da população. Dessa forma, foram realizadas seis reuniões em comunidades rurais estrategicamente escolhidas para abrangerem outras comunidades do entorno, tendo sido contempladas, ao todo, 29 comunidades e 133 moradores que estiveram presentes.


A previsão é que o PMMA esteja pronto até o fim de julho, contudo, foi em alusão e em celebração ao Dia Nacional da Mata Atlântica, que a FAMOR optou por compartilhar antecipadamente com toda a população alguns resultados já levantados. “O Grupo de Trabalho foi formado a partir do convite a 52 pessoas escolhidas para representarem os setores ‘público’ (órgãos municipais, estaduais e federais), ‘acadêmico’ (universidades) e ‘produtivo/trabalhadores’ (associações e sindicatos), além de 36 nomes para representarem as comunidades rurais. Destes convites, resultou um grupo final de 24 membros que representam paritariamente os setores ‘público’, ‘acadêmico’ e ‘sociedade civil’. Além de seis reuniões para elaboração do plano, dezenas de horas foram dedicadas a trabalhos internos para os diversos levantamentos e análises necessários; tudo de forma voluntária”, detalhou o biólogo.


Uma prévia sobre a Mata Atlântica de Orleans


Segundo estudo realizado pelo engenheiro agrimensor e cartógrafo, Danrlei De Conto, durante a pesquisa do seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) na UNESC, Orleans possui pouco mais de 30 mil hectares de vegetação nativa, o que representa aproximadamente 55% do seu território. Se desconsiderarmos a área ocupada pelo Parque Nacional de São Joaquim (PNSJ), no entanto, restam 18 mil hectares de mata nativa. Estes remanescentes, contudo, conforme aponta o biólogo André Klein, apresentam-se muitas vezes degradados ou ameaçados, com área muito pequena para a sobrevivência de espécies e com forte influência de atividades antrópicas no seu entorno.


O profissional alerta para o fato de que, desde o início de 2019, a FAMOR atendeu a 19 ocorrências de desmatamento ilegal que destruíram 8 hectares de mata nativa. Contudo, estas denúncias representam apenas uma pequena fração do que de fato ocorre no município. Em relação às Áreas de Preservação Permanente mapeadas por De Conto (margens de rios, nascentes, topos de morros e encostas) fora da área do PNSJ, apenas metade (49,5%) estão cobertas por vegetação.


“Se fôssemos reflorestar os 3.500 hectares de APPs atualmente sem vegetação, para se ter uma ideia, precisaríamos de mais ou menos 1 milhão de mudas de árvores. A existência de Áreas Rurais Consolidadas, no entanto, reduz o tamanho das faixas cuja recuperação é exigida por lei. Em termos de biodiversidade, Orleans ainda pode se orgulhar: há registro de pelo menos 792 espécies vegetais, incluindo 394 de porte arbustivo-arbóreo, das quais 13 estão ameaçadas de extinção, como a canela-preta, a bicuíba e o cedro-rosa. Com relação à fauna, são pelo menos 27 espécies de anfíbios (duas ameaçados de extinção) 30 de mamíferos (6 ameaçadas) e 155 de aves (9 ameaçadas)”, anumerou Klein.


Dentre as espécies da fauna ameaçadas de extinção, segundo o biólogo, estão o bugio, o gato-do-mato-pequeno, o leão-baio, o porco-do-mato ou cateto, a rã-de-vidro e aves como a araponga, a saíra-militar e o macuco. “Certamente esta diversidade e, por consequência, toda a sociedade, se beneficia muito da existência de duas unidades de conservação em nosso território: o já mencionado PNSJ, nas comunidades de Rio Hipólito, Três Barras e Rio Minador, e o Parque Estadual da Serra Furada, em Rio Minador e Chapadão”, apontou.


A percepção dos orleanenses sobre o meio ambiente


Quem participou das reuniões/oficinas nas comunidades rurais e das reuniões do PMMA que ocorreram no Centro Administrativo de Orleans respondeu às 48 questões da denominada "Consulta Pública de Percepção Ambiental" (CPPA). O CPPA contribui para o diagnóstico do plano através da perspectiva que pessoas comuns têm sobre o meio ambiente e de sua própria avaliação. A conclusão, conforme o biólogo da FAMOR, foi que as afirmativas que mais obtiveram respostas "concordo totalmente" foram sobre a presença de animais nativos nas matas e sobre a influência do clima em nossas vidas, enquanto que a maioria dos entrevistados discorda que o município tenha ações para cuidar da qualidade do ar.


Confira no quadro abaixo os demais itens avaliados pelos orleanenses:



Planejamento e etapas finais


O biólogo André Klein explica que o Plano Municipal da Mata Atlântica apontará as áreas do município prioritárias para conservação e recuperação, os objetivos para estas áreas e as estratégias e ações necessários para que os objetivos sejam alcançados. “São 7 objetivos vinculados a 17 estratégias que, por sua vez, se desdobram em 59 ações. Dentre as estratégias indicadas para conservação e recuperação da Mata Atlântica, estão o fomento à agroecologia e ao agroecoturismo, a implantação de sistemas agroflorestais, o pagamento por serviços ambientais, produção de mudas nativas, programas de pesquisa e educação ambiental”, citou.


Após a conclusão das atividades do Grupo de Trabalho, será realizada uma Consulta Pública e, novamente, a população poderá obter esclarecimentos e fazer contribuições. O profissional explica como funcionará a partir de então. “Uma vez aprovada pelo Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente, o PMMA deverá servir como um guia para os gestores do município saberem onde é mais importante agir e quais são as melhores ferramentas para isso. Ele nos dá uma visão do presente de nossas matas e um norte para um futuro que garanta a preservação de bens coletivos como a água, a regulação dos microclimas, a qualidade do solo e do alimento e as belezas que só a natureza consegue produzir”.


Diversidade de ecossistemas em Orleans



Fêmea com filhote de Bugio-ruivo (Alouatta guariba), espécie nativa da Mata Atlântica que pode ser vista e ouvida em Orleans e consta na Lista Nacional de Espécies da Fauna ameaçadas de Extinção"; fonte: Instituto Rã-bugio para conservação da biodiversidade - Foto de Germano Woehl Junior



Guabiroba-de-reitzi (Campomanesia reitziana), espécie com registros em Orleans e que consta na Lista Nacional de Espécies da Flora Ameaçadas de Extinção; fonte: http://www.ufrgs.br/fitoecologia/florars - Foto: Márcio Verdi



Jasmim-do-mato ou pimenteira (Rudgea jasminoides), espécie com registro em Orleans que consta na Lista Nacional de Espécies da Flora Ameaçadas de Extinção; fonte: http://www.ufrgs.br/fitoecologia/florars - Foto: Márcio Verdi



Perereca-flautinha-de-Ehradt ou perereca-verde (Aplastodiscus ehrhardti), espécie com registro em Orleans e que consta na Lista de Espécies Ameaçadas de Extinção do Estado de Santa Catarina; fonte: Instituto Rã-bugio para conservação da biodiversidade - Foto: Germano Woehl Junior



Saíra-militar (Tangara cyanocephala), espécie nativa da Mata Atlântica que pode ser vista com facilidade em Orleans e consta na Lista Nacional de Espécies da Fauna ameaçadas de Extinção; fonte: Instituto Rã-bugio para conservação da biodiversidade - Foto: Germano Woehl Junior


27/05/2020  às 17hs02